MSN EM TUPI-GUARANI - Internet ajuda povo indígena a manter suas tradições
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sábado, 18 de agosto de 2007
Rodrigo Martins<br>Agência Estado 
São Paulo - ''A internet nos ajuda a ficar mais isolados.'' A frase pode parecer um tanto contraditória, já que, pela rede mundial, dá para ter contato com o planeta inteiro com poucos cliques no mouse. Mas, para Olívio Jekupé, líder comunitário, escritor e morador na aldeia indígena Krukutu, da tribo guarani, justamente por permitir resolver tudo a distância, a web ''faz o bem'' ao afastar os índios da ''cultura branca''.
''Ir à cidade é prejudicial, principalmente para as crianças. Não é bom ter contato com o povo lá fora. Temos de manter nossa tradição'', diz Jekupé. ''Além disso, se formos enviar uma carta, e não um e-mail, por exemplo, temos de ir ao correio. E o mais próximo fica a 30 quilômetros.''
Não, não estamos falando de uma aldeia nos confins da Amazônia. Os krukutus moram em plena cidade de São Paulo, mas bem afastados. Ficam na região de Parelheiros, a 55 quilômetros do centro da capital paulista. Para chegar lá, só por uma longa e apertada estradinha de terra, no meio de uma área de proteção ambiental.
Mas todo esse isolamento não quer dizer que eles estejam longe da tecnologia. Os habitantes da aldeiazinha, que tem 210 moradores em uma área de 70 hectares, possuem internet, celular, TV, DVD e até videogame.
''A tecnologia não atingiu só os brancos'', diz o vice-cacique, Sebastião Armandes, de 44 anos. ''E isso não significa abandonar nossa cultura. Damos orientações, principalmente aos jovens, de que é importante manter as tradições passadas de geração para geração.''
Prova disso é a forma como os índios usam a web. Na praça principal, um prédio feito de madeira rústica e com telhado de palha abriga o Centro de Educação e Cultura Indígena (Ceci), onde há um telecentro.
No local, mantido pela prefeitura paulistana e inaugurado em 2004, há oito PCs, onde os usuários - na maioria, jovens - comunicam-se por e-mail e MSN. Detalhe: na língua tupi-guarani.
Luta por direitos - ''Não falo bem o português'', diz o morador Karaí de Oliveira, de 23 anos. ''E costumo conversar pela internet com amigos de outras aldeias e parentes distantes. Por isso, acho mais fácil escrever em tupi mesmo.''
Essa facilidade de contato com outros índios, inclusive, está permitindo que os krukutus se comuniquem com outras aldeias do país todo. Segundo o coordenador-geral do Ceci, Marcos Tupã, de 37 anos, esse estreitamento na relação indígena ajuda na luta por direitos.
''Ainda são poucas as tribos com internet'', diz. ''Mas, como as aldeias são em lugares afastados, a web permite conversar, por e-mail, com lideranças políticas sobre saúde, educação...''
Outro benefício que a rede trouxe foi o maior acesso à informação. O estudante Ivanildo da Silva, de 21 anos, por exemplo, usa a web em trabalhos escolares. ''É muito mais fácil.''
Já a estudante Fátima Silva, de 16 anos, vê na web uma porta para o mundo. ''Adoro pesquisar sobre animais, plantas e astronomia. Se não fosse a internet, nunca teria acesso. Nossa cultura não tem esse tipo de informação. E já sei bastante coisa. Por exemplo, você sabia que as estrelinhas do céu são planetas?'', pergunta ao repórter.
Tiroteios virtuais - Seja no telecentro ou nos dois consoles de videogame da aldeia, nas horas vagas, o que a garotada mais gosta é de ficar em tiroteios, corridas e lutas virtuais. No telecentro, Edson da Silva, de 14 anos, por exemplo, joga Street Fighter. Maurílio dos Santos, de 14 anos, futebol. E Mônica Vitorino, de 14 anos, se acaba no Super Mario.
Mas há quem prefira o console. O morador Nilson da Silva, de 27 anos, comprou há cerca de um mês um Playstation usado por R$ 400 para os irmãos e primos. Agora, sua casa, de madeira e com chão de terra, fica lotada de moleques, que passam o dia manobrando joysticks.
O estudante Gilmar Rodrigues, de 13 anos, é um deles. ''Adoro Street Fighter'', diz. ''Antes, ia em uma lan house da cidade. Para chegar até lá, andava 30 minutos de bicicleta.''
O dono do console, Silva, nem se incomoda de não poder jogar, já que o videogame está sempre ocupado. ''Deixa os meninos'', diz. ''É a modernidade, o que os jovens gostam hoje. E os índios estão acompanhando isso. É bom. E pensar que antes usávamos velas de cera para iluminação porque nem energia elétrica tínhamos...''


