Muito se pode falar de José Gonçalves e seus vários tentáculos de conhecimento que lhe deram fama e dinheiro no universo das artes. Nascido em uma família com evidente sintonia com pranchetas e desenhos - seu pai, mãe e irmã desenhavam muito bem - foi aos 11 anos que esse paulista de Santa Cruz do Rio Pardo fez seu primeiro curso de pintura.
  Na época, o senso comum dizia que no País a arte produzia mais frustrações do que alegria, e isso fez com que Gonçalves abandonasse as telas, tintas e pincéis e, anos mais tarde, aprovado no curso de Arquitetura da UEL, se mudasse para Londrina. ‘‘Quando fiz arquitetura era preciso saber desenhar muito bem, pois naquela época não havia programas de computador. Acho que esse lado arquiteto tem uma influência grande no diferencial do meu trabalho’’. É verdade, e reside aí, nessa fala do artista, a opinião de vários jurados mundo afora que disseram, entre outras palavras, que o modo único de seus quadros era possuir, além das pinceladas do pintor, o olhar diferenciado do arquiteto.
  Passados 29 anos desde que fincou raízes em Londrina, José Gonçalves despontou entre os brasileiros que conquistaram a América e a Europa com seu trabalho de grandes formatos, rico em cores, detalhes e recortes, o mais contemporâneo possível, como ele mesmo gosta de frisar. Para valorizar as telas ele adiciona espessuras, brilho, reflexo e sombras por meio de materiais como resinas, elementos vinílicos, vernizes, colagens em tecido, papel e plástico. Os mais experts dizem que suas criações possuem um pouco da influência Pop Art. ‘‘É uma mescla de muitas coisas. Vou montando tudo de cabeça, acaba saindo tudo na hora. No meu caso a pressão também faz sair as ideias. Meu estado de espírito me guia’’.
  Os quadros do artista brasileiro que saem de Londrina jamais retornam. Hoje estão expostos em Nova York e São Francisco, nos Estados Unidos; Curitiba, Joinville (SC), São Paulo (SP) e Goiânia (GO). No Brasil, enfeitam paredes de clientes estelares como Ana Paula Padrão e inúmeros artistas da Globo, além de políticos e socialites, editorias de revistas especializadas como Vogue Casa e Claudia Casa. ‘‘Nunca sei ao certo para onde meus quadros vão. De certa maneira eles criam pernas. Às vezes abro uma revista e vejo minhas obras. O legal é saber que as pessoas se identificam com meu trabalho’’, disse.
  Apaixonado pelo métier que lhe deu realização pessoal, profissinal e financeira, Gonçalves caiu nas graças do público norte-americano no ano de 2000, quando fez sua primeira exposição na Judi Rotenberg Gallery, em Boston. Depois disso se consagrou entrando para a lista dos brasileiros mais prestigiados lá fora, expondo também na Campton Gallery, em Nova York. ‘‘O bom é que não preciso morar lá fora para pintar. Posso enviar meus quadros para qualquer lugar trabalhando aqui’’.
  Avesso a expor os valores de suas telas - mas sabe-se que elas não saem por menos de cinco dígitos - seu trabalho ganhou uma nova dimensão quando, em 2008, o renomado designer de bolsas Barba, o convidou para estampar suas telas em bolsas, seguindo a proposta ‘‘Art in Motion’’. O sucesso foi absoluto. A edição - vendida na luxuosa Oscar Freire, em São Paulo, Boston e Dubai (Emirados Árabes) - caiu nas graças das fashionistas e esgotou em pouco tempo. ‘‘Comigo, felizmente, as coisas acontecem. O trabalho vai me levando. Se eu tiver um trabalho bacana consigo o que quiser’’.
Relação de carinho
  Em uma área nobre e tranquila, José Gonçalves firmou seu ateliê-estúdio. Arquitetado por ele, no espaço surgem seus quadros com coloridos impecáveis. A decoração conta com suas obras e é divida com peças que o artista traz de suas viagens feitas pelo mundo.
  Um lado da ampla casa ele reserva ao descanso; do outro, onde estão expostas suas criações, recebe seletos clientes que vem, principalmente, da capital paranaense. ‘‘Podia morar em Curitiba, porque meu mercado forte é lá. Mas gosto mesmo é daqui’’. Isso se comprova a cada vez que ele faz menção à cidade que adotou de coração. É em Londrina que o artista encontra a calmaria para criar e ter qualidade de vida.
  ‘‘Boa parte dos meus amigos de faculdade também ficou aqui. Londrina cativa. Preciso de paz para pintar. Essa cidade tem um clima ótimo. Morei em São Paulo, tive oportunidade de morar em Boston, mas foi aqui que quis ficar’’, revela o artista.
  Hoje sua vida se resume no que de melhor sabe fazer: pintar. Para tanto, reservou as festas de fim de ano para se dedicar a essa arte que o transformou em um expoente da pintura contemporânea. ‘‘Tenho que trabalhar muito mais, mas estou super-realizado. Quero que meu trabalho seja muito maior. Quero fazê-lo aqui e mandá-lo para outros lugares. E acho que se morasse em outro lugar meu trabalho não seria como é. Adoro Londrina’’, conclui.

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