Motos estão envolvidas em mais de 1/3 dos acidentes em Londrina
Encontrar personagens que exemplificam as dificuldades enfrentadas pelos motociclistas em Londrina não é uma tarefa difícil. Qualquer entregador, mototaxista ou motoboy da cidade tem uma história de acidentes, assaltos ou as duas coisas para contar. Obviamente, nenhum assume o estigma de irresponsável no trânsito, mesmo admitindo que se aproveitam da agilidade das motos durante o serviço. Entre os depoimentos ouvidos pela Folha, a causa das ocorrências foi atribuída a outras pessoas e não a motociclistas.
Valmir Ferreira, 37 anos, é um destes casos. Ele conta que já trabalha como mototaxista há cinco anos, justamente por não ter encontrado um emprego na área para a qual tem formação: a de motorista. ''Tento até hoje entrar paa uma empresa de transporte, mas não consigo. Carrego alguns currículos comigo'', garante.
Enquanto busca o emprego desejado, Valmir se sustenta com o uso da moto. Não reclama do salário, cerca de R$ 900 por mês, mas afirma categoricamente que abriria mão dele por mais segurança. ''Uma vez fui assaltado no Jardim Tropical (Zona Norte). Dois homens armados me pararam e levaram minha moto. A PM apareceu 40 minutos depois de eu ter chamado. Duas horas mais tarde, policiais me ligaram para dizer que haviam encontrado duas motos. Nenhuma delas era a minha. No dia seguinte, saímos para fazer uma busca quando uma pessoa me ligou e disse que havia achado a moto, mas que queria R$ 500 para falar onde ela estava. Paguei'', lembra.
Também mototaxista, Roberto Garcia, 35 anos sete deles em cima de uma moto tem como história um acidente que sofreu, há dois anos. Ele transitava por uma avenida quando uma outra moto cruzou a preferencial e o derrubou. ''Fiquei cinco meses parado. Quebrei um braço e tive que fazer drenagem na perna. Sabia dos riscos que correria quando entrei para este serviço. Mas como não arrumava emprego, escolhi ser mototaxista'', diz.
José Júlio do Carmo é o mais experiente dos três. Além de trabalhar com moto há 10 anos, dedicando os últimos quatro a fazer entregas para uma empresa terceirizada, já sofreu cinco acidentes e foi assaltado outras tantas vezes. Dos acidentes que já sofreu estava certo em todos eles, garante lembra-se do mais marcante, quando uma van cruzou a preferencial, forçando o impacto. ''Desmaiei e sofri traumatismo na cabeça'', conta, mostrando a cicatriz.
Refém dos próprios clientes, Carmo também foi assaltado quando achava que estava cumprindo uma obrigação profissional. ''Pediram um remédio na farmácia onde eu estava, e exigiram troco para R$ 100. Quando cheguei, um homem armado só pediu para que eu jogasse o dinheiro no chão e fosse embora. Obedeci'', conta.
Carmo admite assumir parte da responsabilidade pela pecha de irresponsável que a sociedade faz aos motociclistas. Ele próprio descreve várias situações em que a imprudência parece possuir quem anda de moto. Por outro lado, o entregador exige que este preconceito não prejudique quem anda com responsabilidade. ''Não tenho profissão, pois parei de estudar muito cedo para ajudar no sustento da minha família. É um trabalho digno e não podemos admitir que sejamos encaramos como bandidos. Já passei por situações muito constrangedoras, como ser escoltado ao fazer uma entrega dentro de um condomínio horizontal. É humilhante'', afirma, em consonância com a presidente da associação de mototaxistas. ''Com o tempo, o preconceito vai diminuir, eu espero. Logo as pessoas vão perceber a pressão e os riscos a que estes profissionais estão sujeitos. Quando eles saem para trabalhar, nunca sabem se vão voltar''.(A.M.)





