Quase cinqüenta anos como motorista da Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP) e funcionário da família Thomas conferiram a Alcides de Mello, 87 anos, oportunidade de presenciar fatos marcantes da história de Londrina. Aposentado e morando com um filho na Área Central, ele lembra com riqueza de detalhes dos primeiros anos da cidade, da juventude e do longo período de trabalho prestando serviço para o fundador Arthur Thomas, a esposa Elizabeth e o filho Hugh.
  Natural de Chavantes, no interior paulista, Mello veio com os pais para Londrina com o pai, o fotógrafo Antônio José e a mãe, a dona de casa Eulalina em 1934. Não havia cidade, apenas um pequeno povoado, de 21 casas. ‘‘Contei pessoalmente.’’ Na memória de Mello está a liberdade para percorrer as matas, que contornavam todo o povoado. O território foi explorado pelo jovem que, de bicicleta, embrenhava-se nas trilhas e chegou até Nova Dantzig, atual Cambé. ‘‘Lá só tinha uma casa pronta e outra em construção. Era bom andar de bicicleta na terra vermelha. Em Presidente Venceslau (interior paulista), onde morávamos antes, era um areião terrível para pedalar’’, conta.
  Nos primeiros dias no Norte do Paraná, Alcides de Mello conseguiu emprego em uma serralharia. Trabalhava como foguista, era responsável em manter em atividade os fornos que alimentavam o maquinário. Pouco tempo depois, teve a oportunidade de mudar de função e foi ser marceneiro, ofício que havia exercido no interior de São Paulo. A próxima atividade profissional de Mello foi motorista de praça. A mudança do destino dele teve início no dia 1 º de abril de 1938, quando ingressou na Companhia de Terras Norte do Paraná e foi ser funcionário de Arthur Thomas e Willie Davids, diretores geral e técnico da empresa, respectivamente. ‘‘Já dirigia para o Mister Thomas como motorista de praça com o meu pé-de-bode. E ele gostava do meu trabalho’’, relembra.
  Por volta de 1940, conta Mello, o evento histórico foi a chegada da energia elétrica em Londrina. O motorista foi responsável por levar Rolando Davids - irmão de Willie - e Gastão Mesquita, sócios da empresa elétrica, para o Distrito da Warta, com o intuito de assistir ao ‘‘espetáculo’’ de uma área alta da região. Havia somente alguns poucos postes ao redor da atual Praça Marechal Floriano Peixoto. A energia era produzida na Usina do Ribeirão Cambezinho, hoje dentro do Parque Arthur Thomas. ‘‘Ao avistar aquele cordão de luz no meio da mata, Willie Davids comentou: ‘Parece um colar de pérolas’ Isto ficou na história.’’
  Após a venda da companhia para um grupo de brasileiros, Mello acompanhou a família Thomas e foi ser o administrador-geral da Fazenda Primavera, localizada em área vizinha aos atuais Cinco Conjuntos, na Zona Norte. Ele permaneceu no cargo mesmo após a morte de Arthur e Elizabeth, em 1960 e 1975, respectivamente.(F.R.F)

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