Motivos diferentes para a mesma paixão
Como é um hábito caro para o público médio, os clientes de Horácio De Bonis são poucos, não ultrapassando o número de 30. São, porém, fiéis. Ele diz que alguns compram novidades toda semana. Pode ser de um a dez discos. Basta ter o que o cliente deseja. ''São fãs de música. O critério que determina se vendo muito ou pouco não é o preço do dólar e sim a entresafra artística. Só não vendo quando não existem bons lançamentos'', revela.
De Bonis diz que o perfil dos clientes mais fiéis variam entre os saudosistas, os que querem o disco como objeto, os colecionadores e os audiófilos, ligados na qualidade do som tanto quanto na música. No quesito profissional, varia. Vão de engenheiros a médicos, de arquitetos a jornalistas. A faixa etária geralmente está entre 30 e 50 anos. O hábito da importação está estritamente ligado ao sucesso profissional do cliente. Jovens são raros - mais pela questão financeira.
Hoje, o analista de suporte Wandique Gonçalves da Silva, de 51 anos, importa uma média de três a quatro vinis por mês. Para chegar a este número, a história de Silva está praticamente ligada a história da música e da evolução técnica dos meios de reprodução desta na segunda metade do século XX. A importação de discos de vinil tem um motivo principal: a qualidade do som.
Silva é audiófilo. A qualidade de reprodução do som, para ele, tem de ser melhor até do que a música. ''Se vou em local, pode estar tocando minhas músicas preferidas, mas se a qualidade de som é ruim, me incomoda muito'', diz. O equipamento em que ouve música é diferenciado, no qual mínimos detalhes influenciam. Também importado - os cabos às caixas - toda a aparelhagem custou em torno de R$ 30 mil.
Ouvir música em vinil, diz Silva, é como entrar em uma banheira de água morna. As metáforas que usa para definir a diferença entre ouvir música em um aparelho de boa qualidade e um de má são muitas. Compara o hábito ao prazer de tomar sorvete de chocolate na Itália: ''Depois disso, o sorvete vai ser ruim em qualquer parte do mundo'', compara.
A intenção do audiófilo é reproduzir na sala de casa o clima e a sonoridade de um concerto ao vivo - que é a perfeição da execução do som em se tratando de música. ''O ideal era ter um aparelho a baterias, pois a corrente elétrica interfere na qualidade do som'', explica.
Fernando Ribeiro importa disco de vinil e também CD, mas por um motivo diferente de Silva: é DJ e colecionador. Como DJ, começou tocando estilos como house e downtempo. Hoje leva para pista um pouco mais de sua paixão pelos estilos que coleciona: soul, funk e black music em geral. Ribeiro importa desde os 15 anos. ''Comecei trazendo coisas que não encontrava no Brasil. Primeiro eram CDs. Os vinis vieram depois, quando comprei minhas pick-ups'', conta.
O DJ diz que compra no mínimo dois discos por mês. ''Aí entra meu lado colecionador. Compro para ouvir, mas acabo usando no trabalho'', diz. Segundo suas contas, Fernando Ribeiro tem 300 LPs importados. Quanto aos valores gastos, ele diz que o custo é alto, mas vale a pena pelo prazer de manusear um vinil, seja em uma balada, seja na calma do lar. ''A qualidade do material que andam lançando lá fora é impressionante. Se no Brasil o vinil morreu, lá fora estão cada vez melhor'', opina.
Para quem ainda está na faixa dos 20, pode importar edições mais simples, mas não menos charmosas. Uma edição do disco lá do início, o ''Velvet Underground & Nico'', em edição menos luxuosa, pode ser comprado por cerca de R$ 70. Eu vou pedir o meu. (T.A.)





