Motivadores de plantão não fazem milagre
Para quem ainda não é conhecido no meio, o caminho das pedras inclui se oferecer para falar de graça e escrever artigos, também sem remuneração, em sites e publicações sobre planejamento de carreira, vendas, bem-estar, recursos humanos e afins. Na página do conferencista Diego Berro, por exemplo, o internauta pode se consultar por meio de textos como ''Agradeça em vez de reclamar'', ''Empreenda seus sonhos'' e ''A influência das cores, dos sons e das sensações no processo de venda''.
Outra porta de entrada para o mundo das palestras ®MDBO¯in company ®MDNM¯são os livros. Daniel Godri Jr., de 30 anos, já escreveu três: ''Mudanças e Oportunidades - 70 Dicas para Você Vencer as Montanhas do Medo na Vida e Nos Negócios'', ''Venda Mais e Melhor - Aumente seu Volume de Vendas e o seu Faturamento'' e ''Sou Campeão por Natureza - Segredos dos Animais para ser um Vencedor''.
Além do livros, Godri Jr. tem CDs e DVDs lançados e apresenta um programa de TV numa emissora ligada ao catolicismo carismático. Segue os passos do pai, veterano no mercado das palestras motivacionais. ''Acho que é o primeiro caso de segunda geração atuando no meio'', diz.
Questionados sobre a fama de ''gurus'', os palestrantes desconversam. Mas não escondem uma certa vaidade. ''Sou um anjo disfarçado, um amigo que ajuda o outro a caminhar mais rapidamente'', afirma Osmar Coutinho. ''Querendo ou não, você acaba influenciando pessoas'', opina Godri Jr.
O rótulo também é rejeitado por Maurino Veiga, de 37 anos, fundador do instituto que leva seu nome e um dos consultores mais requisitados de Curitiba. ''Me considero um assistente de realização de sonhos, só isso'', garante.
Ao contrário de muitos palestrantes que fazem da própria casa sua base de contatos, Veiga atende em um amplo escritório no centro de Curitiba. E não trabalha só. Cerca de 25 colaboradores - entre médicos, psicólogos e assistentes administrativos - fornecem o suporte necessário para o desenvolvimento de seus programas de motivação, qualidade de vida, relacionamento interpessoal, etc.
Formado em Administração, Marketing e com alguns cursos realizados na área terapêutica, Veiga define seu público: ''São pessoas muito inteligentes, que querem melhorar sua qualidade vida e não conseguem''. Mas por que não conseguem, se são tão inteligentes? ''Porque a rotina não as deixa pensar, e elas acabam não criando um tempo para desenvolver uma vida com mais qualidade'', responde.
Para o palestrante e professor universitário Marcelo Karam, o problema está no autoconhecimento. Ou melhor, na falta dele. ''A educação não estimula as pessoas a refletir, apenas a produzir'', diz o ex-campeão de ginástica aeróbica.
Mais crítico do que os colegas, ele também aponta o estágio atual do capitalismo como um dos fatores responsáveis pela desestruturação do indivíduo. ''A economia está aquecida, mas o planeta não suporta mais um ritmo tão maluco. Nesse ambiente competitivo, as pessoas adoecem, tornam-se depressivas, viciadas em remédios''.
As empresas, por sua vez, atuam numa via de mão dupla: ao mesmo tempo em que estimulam a competitividade, contratam palestrantes para falar sobre motivação e qualidade de vida. Karam concorda. ''As empresas são altamente contraditórias. Muitas delas querem que eu chegue, fale e que tudo continue como está. Acho até que não faço mais trabalhos porque nem sempre digo o que os contratantes querem'', confessa.
Agradando ou não os patrões, os motivadores de plantão nem sempre provocam mudanças por onde passam. Não necessariamente por culpa deles, e sim de quem contrata. ''Há bons e maus profissionais em qualquer atividade econômica. O problema é que, muitas vezes, as empresas consomem essas ferramentas por modismo e não as usam de maneira adequada'', afirma o consultor de RH Cássio Mattos, ex-presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) e atualmente membro do conselho deliberativo da entidade.
Ele ainda faz questão de enfatizar que as técnicas de motivação não fazem milagres. ''Elas servem para que o empregado que já se sente bem dentro da empresa continue motivado. Quem é deprimido por natureza, vai ficar do mesmo jeito''.
Ou seja: quem nasceu para jabuti, nunca vai chegar a galo. (O.G.)





