Mortalidade materna, o desafio
O sistema brasileiro de saúde ainda tem muito a aprender para reduzir os índices da mortalidade materna. Falta, principalmente, humanismo; faltam condições que possibilitem à pessoa exercer a cidadania; falta reduzir drasticamente os índices de cesarianas; falta formar profissionais críticos. A maternidade tem de ser centrada na família. O pré-natal deve envolver o marido também, e isto é fundamental.
Estas são as conclusões da tese de doutorado Mortalidade Materna - o que os números não revelam, apresentada à Universidade Estadual de Maringá (UEM) em 1º de março pela professora do curso de Enfermagem Sandra Marisa Pelloso, 38 anos. A tese foi aprovada e Marisa, que já havia conseguido o título de mestra na Unimep (USP de Piracicaba-SP), agora é doutora. Ela é professora da UEM desde 1986.
Basicamente, a tese é o resultado de nove entrevistas feitas pela professora com maridos de mulheres que morreram entre 1990 e 1997, antes, durante e após o parto em virtude de problemas gerados pela gravidez. Marisa trabalhou somente com maridos de mulheres que morreram de causas diretas - infecção puerperal, eclâmpsia ou hemorragia, por exemplo - e não de causas indiretas, como diabetes e cardiopatias.
As entrevistas com os maridos foram gravadas. Com um deles, ela conta que por várias vezes teve que desligar o gravador: Choramos juntos, e muito. Com outro, ficou sabendo que a mulher dele teve 12 filhos em casa; no 13º parto, feito em hospital, a mulher morreu.
Ela afirma que ter direito à saúde está na Constitutição, mas o sistema não funciona, a mulher faz pré-natal com o mesmo médico durante os nove meses da gravidez e quando vai ter o bebê o médico é outro. Há uma quebra de empatia com o médico que fez o seu pré-natal.
O pior momento que esses nove maridos viveram, segundo a tese de Sandra, foi a hora da notícia da morte de suas mulheres. Eles estavam sozinhos. Quando mais precisavam de consolo, de uma voz amiga, não havia ninguém. O gesto de humanismo não é previsto no nosso sistema de saúde. Eles ficaram impotentes. A dor foi tanta naquele momento, eles precisavam tanto de suas mulheres, que jamais esquecerão aquele sofrimento. Depois, sem mulheres, foram morar com a mãe ou com a sogra, e o filho, se sobreviveu, foi entregue a outras mãos, enfim, a família ficou esfacelada, sem que ninguém pudesse ajudá-la, explica.
Entre 1990 e 1997, 84 mulheres morreram devido a problemas gerados por causas diretas na região de Maringá: 55 foram cesarianas e 29 partos normais. Elas tinham, na época de suas mortes, entre 20 e 29 anos de idade.
O que mais me causa espanto, diz, é saber que 98% dos óbitos maternos podem ser evitados. Querem ver a diferença? No Canadá, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a mortalidade materna é de quatro para 100 mil nascidos vivos; no Brasil, de 134,7 para 100 mil; no Paraná, 88 para 100 mil.AlertaSandra: faltam humanismo e condições para o exercício da cidadaniaMarccio W. Varella





