A aposentada Ophelia Molinari, 84 anos, responde com um enfático ''não'' quando o repórter pergunta se ela aceitaria vender a casa de madeira onde mora há 56 anos, na Rua Uruguai (Área Central de Londrina). Desde que se mudou para a residência, com marido e filhos, dona Ophelia morou por alguns períodos (devido a reformas na casa) em construções de alvenaria. Nessas oportunidades, sempre alimentava a vontade de voltar à casa de madeira.
''Foi aqui que a gente se estabeleceu, por isso continuo. Esta é uma terra abençoada'', diz ela. Dona Ophelia chegou a Londrina nos anos 40 vinda de São Carlos, interior de São Paulo. Tinha ao seu lado o marido, que trabalhava como serralheiro, e cinco filhos (outros dois nasceriam no Paraná). Após alguns anos morando de aluguel numa casa na Rua Amapá ''perto da zona'', lembra Dona Ophelia, às gargalhadas , a família se mudou para a Rua Uruguai, numa troca por terras devolutas localizadas em Cornélio Procópio.
A nova residência era cercada por mato e outras casas de madeira. As ruas eram de terra, o esgoto ficava a céu aberto, as unidades de saúde ficavam longe. Água, só de poço. Com frequência, boiadas passavam pela região. Mesmo recordando tais limitações, a família guarda lembranças afetuosas do período. ''Jogávamos bola nos campinhos e roubávamos laranjas nos sítios. No Carnaval, os vizinhos se juntavam para jogar confete pelas ruas. Era aquela época em que os pais se preocupavam menos'', lembra o professor Hugo Molinari, filho de Dona Ophelia.
Com a passagem dos anos, a maioria das casas de madeira nas cercanias foi derrubada. Os vizinhos daquela época que ainda moram na região podem ser contados nos dedos. O asfalto veio nos anos 60, seguido por outras melhorias. O limpador de pés próximo à porta foi removido, ao contrário das memórias. ''A gente carrega saudades'', suspira Dona Ophelia, entusiasta da moradia de madeira numa cidade de cimento.

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