Ela tem 17 anos recém-completados, mas parece bem mais jovem. Como toda adolescente, gesticula exageradamente enquanto fala, passa as mãos pelos cabelos e demonstra certa timidez, natural da idade. Mas é a ansiedade a característica mais marcante durante a conversa com a estudante Denise Felizardo Cirino, que frequenta o terceiro ano do Ensino Médio, num colégio de Londrina. E toda essa agitação tem um motivo muito sério: estamos falando sobre a escolha da profissão.
Denise vai prestar o primeiro vestibular, mas teve dúvidas para definir os cursos escolhidos. Isso mesmo, cursos. Serão dois exames em duas universidades. Numa delas, tentará Desenho Industrial e, na outra, Estilismo em Moda. Apesar de diferentes áreas, os cursos estão relacionados à criação, às artes, características latentes na jovem estudante, descobertas por meio de dinâmicas em grupo e respostas a questionários, dentro da própria escola.
Mas não foi fácil chegar a essa conclusão. Pela cabecinha de Denise, já passaram os cursos de Direito e Medicina, áreas completamente divergentes, inclusive com a escolhida. ''Gosto de muitas coisas diferentes. Quero fazer tudo ao mesmo tempo''. Mas em qual curso você prefere passar? ''Se passar em qualquer um dos dois, está bom''. Em seguida, emenda: ''De repente, se passar, faço os dois cursos ao mesmo tempo...(risos)... Não, acho que isso não dá'', conclui.
A agitação de Denise é tanta que ela pensa ainda mais longe nesse período que antecede o vestibular. ''Você fica preocupada com tudo'', comenta. ''Não sabe o que vai fazer, se vai passar, qual universidade é melhor, se vai ser boa profissional, se vai conseguir se especializar, como vai ser a remuneração... E depois, quando se aposentar... Será que vai conseguir uma aposentadoria boa?'', angustia-se, emendando uma preocupação na outra.
Questionamentos assim são comuns nos vestibulandos, principalmente quando os dias fatídicos do exame vão se aproximando. A pressão aumenta e as cobranças também. ''Acho que me cobro demais. Quero passar, por mim e também pelos meus pais, que fizeram um investimento grande até agora. Se não passar, vou me frustrar muito ''.
A aluna exigente tem uma rotina puxada de estudos. Pela manhã faz o Ensino Médio já direcionado para o vestibular. ''Ainda tenho a preocupação de ser aprovada no terceiro ano'', lembra. À tarde, frequenta aulas específicas para os cursos escolhidos e, à noite, estuda mais um pouco em casa. Nesse meio tempo, aulas de natação, no próprio colégio, ajudam a relaxar.
Mas os momentos de relaxamento são curtos. Logo os pensamentos voltam à cabeça da adolescente. ''Acho que poderia ir melhor. Quando vejo que errei uma questão que eu sabia, fico louca. Uma questão faz diferença. Por isso, se os gênios usam apenas 10% do cérebro para pensar, quero usar 20%''.
Outra dúvida de Denise é começar o curso e não gostar. ''Tenho medo de 'odiar' o curso. Quero que seja como a minha irmã. Ela adora o curso que faz. Sofre bastante, mas acertou na escolha''.
Definir qual profissão seguir, aos 16 ou 17 anos, é uma tarefa difícil para os adolescentes. Com 12 anos de experiência em atendimento a vestibulandos, a psicóloga Celi Lovato explica que a fase é delicada e requer muita paciência. ''Eles ainda nem sabem quem são, como vão conseguir definir o que serão aos 25, 30 anos?''
A psicóloga comenta que a dúvida na escolha da profissão é normal. E não se preocupem os que pensam em vários cursos ao mesmo tempo, mesmo de áreas diferentes. Isso também é normal. ''Desta forma é mais fácil afunilar, descobrir as aptidões e chegar à escolha ideal'', afirma Celi. O problema, segundo a psicóloga, é quando o aluno não gosta de curso nenhum, não consegue se identificar com nenhuma profissão. ''Nestes casos, é preciso um acompanhamento psicológico para que ele se descubra e se entenda melhor''.
Uma das dificuldades é que o aluno vai escolher a profissão, baseado apenas na percepção e na observação. ''A vivência mesmo, eles só terão no curso e quando estiverem trabalhando'', afirma Celi. ''Até mesmo por isso, o ideal é manter contato com profissionais de várias áreas, buscar informações sobre todas as profissões que interessam e se informar. Na maior parte das vezes conseguimos chegar ao curso certo''.
E como controlar a ansiedade, que insiste em afligir o vestibulando, mesmo depois do curso já definido? Primeiro, calma. Escolhido o curso, o ideal agora é se organizar. Manter horários de estudo e não esquecer do lazer. ''Tem que saber a hora de parar, dar um tempo, relaxar'', indica a psicóloga. Orientações que a estudante do cursinho, Adna de Moura Ferelli, de 20 anos, já está conseguindo seguir.
Buscando vaga num dos cursos mais concorridos no Brasil, o de medicina (com média de 80 candidatos por vaga), Adna já prestou 15 vestibulares, em três anos de tentativa. A ansiedade é muito grande e o nervosismo só atrapalha. No último concurso, realizado no ano passado, ela desmaiou na sala de aula, durante a prova. ''Fico muito ansiosa. Conheço todo o conteúdo, mas tenho medo de não ser aprovada. Conforme vai passando o tempo, tenho medo de ficar no cursinho outra vez''.
A estudante conta que vai bem nas provas e que fica sempre ''raspando'' nos concursos. ''No último vestibular, fiquei por apenas 12 pessoas. É muito frustrante quando você não vê seu nome na lista''. Ela se diz segura em relação às matérias, mas acredita que a rotina desgastante prejudica o resultado. Nos três anos de tentativa, quatro universidades (duas no Paraná e duas em São Paulo) têm sido os alvos da aluna. ''Tenho de tentar em várias para conseguir passar''.
Outro fantasma enfrentado pela estudante é a concorrência. Apesar da preocupação, Adna já consegue relaxar um pouco e, de vez em quando, deixa os livros de lado.

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