São Paulo - Quem tem um mínimo interesse por música sabe que o século 21 não veio para brincadeira: as mudanças que a era digital trouxe para o meio talvez tenham sido mais radicais do que para qualquer outra área. E o músico? Aquele sujeito que passou anos aprendendo notação musical e horas diárias dedicadas a um instrumento ficou ultrapassado? Não é o que acredita o multiinstrumentista Guga Stroeter. ''No fundo, a informática proporcionou uma volta ao artesanal porque agora é mais importante quem está lidando com a máquina do que a máquina em si.''
''Antigamente o Vadico fazia a música, o Noel Rosa escrevia a letra, a Aracy de Almeida cantava, o Pixinguinha fazia o arranjo e esse processo dava origem à música, que é o produto final. Hoje é o contrário. É a finalização que determina o produto, não o processo anterior. Tem uma nova geração de produtores que não são músicos.''
Líder da big band de música latina Heartbreakers, Stroeter explica que alguns produtores estão alcançando o equilíbrio entre a tecnologia digital e a analógica. Eles equipam seus estúdios com computadores de última geração ao mesmo tempo em que desenterram tecnologias de gravação e reprodução de som usadas no passado.
Tecnologias como microfones russos e amplificadores de guitarra brasileiros, que, se antes eram considerados rústicos, hoje são procurados por ter um som específico, próprio e inimitável. ''A tendência hoje é a combinação do que há da tecnologia de ponta com o processo artesanal, que é aquele que o avô ensinou pro pai, que ensinou pro filho. Esse processo é insubstituível.''
O primeiro contato que Guga teve com o computador envolvendo música ocorreu bem no começo de sua banda, em 1989, quando descobriu um software que possibilitava escrever partituras sem precisar recorrer ao papel. ''Isso foi muito importante porque sempre que precisávamos refazer um arranjo, tínhamos que refazer partitura por partitura.''
Ele conta como era o processo anterior ao falar de como foi um dos primeiros shows de sua banda, no Rio de Janeiro, com Dorival Caymmi e Elizeth Cardoso (''foi a última vez em que ela subiu no palco'', lembra). Ao chegar para a passagem de som, Elizeth pediu para mudar o tom da música - e a banda teve que refazer todos os arranjos da noite para o dia. ''E na mão, apagando o lápis com uma sandália Havaiana, porque não tínhamos borracha'', ri. Com o novo programa, tudo era resolvido na tela do computador - depois era só imprimir.
Guga vê a crise da indústria fonográfica com muita felicidade, mesmo que alguns de seus amigos estejam passando dificuldades justamente por conta desta crise. ''O disco físico hoje é só um cartão de visitas, mas está deixando de ser. É uma mídia que a gente troca socialmente - sempre carrego meus discos comigo.'' Mas ele acredita que isso é eco de uma época que está no fim - e conta que foi surpreendido em sua última viagem a Nova York, quando foi visitar a loja Tower Records e ''não tinha mais Tower Records!''.
O músico, no entanto, não baixa músicas pela internet (''tenho dificuldade'') e ainda é um ávido comprador de discos. ''Nessa viagem inclusive eu comprei vários discos clássicos de jazz baratíssimos, o que também é um reflexo dessa crise'', conta, explicando que, mesmo sabendo que os discos ocupam um espaço precioso em sua casa, não consegue trocá-los por um iPod cheio. ''Ainda tenho o prazer táctil com a música'', explica. ''E não tenho orgulho de dizer isso, mas sou um tecnófobo. Tenho dificuldade em acertar relógio digital, forno de microondas e as diversas coisas que o celular pode fazer.''
Ele ainda mantém seu próprio site (www.gugastroeter.com br) e tem alguns projetos na manga, como um grande site de preservação da memória da música popular brasileira. Guga diz que isso é uma forma de trazer à tona a utopia do escritor Mario de Andrade quando foi ministro da Cultura. ''Gravamos um disco com pesquisador de música popular brasileira chamado 'Sapopemba', que é um dos maiores arquivos vivos de cultura popular do Brasil. No processo, foram registrados cantos do vale do São Francisco, congadas, sambas de roda, cocos e trabalhou esse repertório na forma do jazz acústico contemporâneo.''
E voltando à questão inicial, Stroeter considera muito positiva o que chama de quebra da hierarquia que prevaleceu até a metade dos anos 90. ''Vivemos décadas e décadas de uma ditadura que hoje só sobrevive em alguns símbolos - um dos principais deles é a briga entre o Faustão e o Gugu'', explica o músico, comparando assistir à TV no domingo com abrir uma janela para o passado. ''Era um mundo em que você tinha uma única possibilidade de acesso ao fazer música - que era confundido com a possibilidade de fazer sucesso. Fazer sucesso hoje é outra coisa''.

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