Moda
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quinta-feira, 21 de agosto de 1997
Simone Mattos 
Arquivo PessoalAdão e Eva retratados na Idade Média: o ventre saliente dela mostra um padrão de beleza feminina da épocaAs famosas saias com pregas, rodadas e compridas, lançadas e consagradas por Christian Dior na década de 40, não se tornaram preferência unânime das mulheres por acaso. Na época, o estilista foi patrocinado pela indústria têxtil européia, que incentivou o exagero de pano nas roupas para recuperar o tempo (e o dinheiro) perdido durante a recessão provocada pela 2ª Guerra Mundial.
Na moda nada acontece por acaso. Os fatos estão estreitamente ligados com a história política e social de um povo, afirma um dos únicos historiadores de moda do mundo, o fluminense João Braga, pós-graduado em História da Indumentária na Esmod, em Paris.
Na semana passada ele esteve em Curitiba falando sobre o passado, o presente e o futuro da moda, numa verdadeira aula de história geral que atraiu alunos e profissionais da área. Estar na moda é ser um eterno pesquisador, ensina ele.
Quando fala em modismos, Braga costuma frisar que não está se referindo apenas às roupas, mas à indumentária em geral, que sempre reflete fenômenos culturais e sociais.
Albari RosaO pesquisador João Braga, pós-graduado em História da Indumentária na Esmod, em Paris.Em algumas tribos africanas, por exemplo, uma mulher poderá estar nua, mas se usar uma flor do lado direito do cabelo significará que é solteira, enquanto do lado o oposto demonstra o contrário: que é comprometida.
Entre outros exemplos, durante a palestra ele citou o caso dos ventres salientes, padrão absoluto de beleza nas mulheres medievais (entre os séculos 11 e 15). Hoje as pessoas vêem os quadros pintados naquela época e imaginam que todas as mulheres retratadas estivessem grávidas, diz Braga.
Para conseguir tal efeito, as damas comiam muito, colocavam enchimentos embaixo da roupa e prendiam apertados cintos debaixo do seio, para salientar a barriga. Com isto, o objetivo era representar ociosidade e fartura, típicos das classes altas, além de fazer alusão à imaculada gravidez da Virgem Maria.
Como se estivesse viajando numa máquina do tempo, o professor passa pela era dos espartilhos - quando as mulheres espremiam suas cinturas até conseguirem 40 centímetros de diâmetro (dez a menos que o pescoço de Mike Tyson) - e chega às torturas atuais, como o body-piercing e os sapatos plataformas.
Arquivo PessoalAs maquiagens utilizadas na década de 30 eram pálidas, sem a vasta opção de cores e produtos específicos que existem hojeA autotortura faz parte da moda, assim como a magia, ensina. Nada é mais mágico, por exemplo, do que um vestido de baile, que desperta nas mulheres a síndrome da Cinderela, diz Braga. Quando se vestem assim, elas buscam um príncipe, um sonho, uma noite mágica ou um sapatinho de cristal.
Na opinião do professor, estabelecer esta relação direta entre a moda e o contexto da época é essencial para o trabalho diário de um profissional de moda. A partir da pesquisa entendemos o processo de acerto e de erro, que nos leva ao profissionalismo, acredita ele. Desde que começaram a surgir escolas de moda no Brasil, nos últimos dez anos, estamos evoluindo a passos largos.


