Um tanto de misticismo também envolve o encontro do Maracaeté com a Sociedade Treze de Maio. Uma série de coincidências com situações que ocorreram no passado, fez o grupo refletir sobre o estreitamento de relações com o local. ''Fizemos aqui a festa de aniversário de um ano do Maracaeté e lotamos a casa com 450 pessoas. O seu Álvaro (presidente da sociedade) gostou tanto do evento que nos convidou para fazermos os ensaios aqui'', lembra Brenda Maria.
Em 2007, o grupo promoveu outras duas festas na sociedade, nos dias 5 de outubro e 8 de dezembro, dia de São Benedito dos Homens Pretos e Nossa Senhora da Conceição, respectivamente. ''Nós nem sabíamos que essas datas eram religiosas. Escolhemos por acaso mesmo. O historiador Edvan Ramos, que faz estudos sobre a sociedade, conferiu as festas e nos revelou essa coincidência, que os sócios da Treze de Maio comemoravam essas datas no passado. E de fato, as duas festas foram incríveis, ninguém sabia explicar exatamente o porquê'', conta Brenda.
''O Maracaeté está fazendo rituais antigos na sociedade de forma instintiva. Na noite de São Benedito fizeram uma festa tão bonita. Havia altar e elementos do candomblé e do catolicismo, revivendo uma festividade ocorrida em 1893, com batucada, ritmos afro e fins religiosos, conforme documentos históricos. Não conheço nenhuma cultura negra que se enquadre tão bem com a sociedade como esse grupo de maracatu'', observa o historiador Edvan Ramos, que passou a estudar a Treze de Maio, há 15 anos, durante suas pesquisas sobre Maria Bueno - que manteve relações com a entidade e com a irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, extinta na década de 1940.
Sociedade congregou os ex-escravos
Segundo Ramos, a sociedade foi o único centro oficial que congregou os ex-escravos, após a Lei Áurea, que precisavam buscar meios de sobrevivência. ''Para 99% dos libertos, a sociedade era um ponto de referência, onde se encontravam e recebiam ajuda social, para alguns até a morte. Tudo era mantido pelos negros que trabalhavam e contribuíam com a casa. Também recebia apoio dos militares e de alguns intelectuais. A sociedade guarda uma história rica e pouco valorizada'', pontua Ramos, contando que a região no entorno da casa, conhecida como Boulevard São Francisco, era habitada pelos negros. Ele só lamenta a escassez de documentos históricos da sociedade.
A partir de 1950, a Treze de Maio se abriu para novos sócios, não apenas negros e desde então, foram se perdendo as festividades religiosas e as tradições. Dessa nova fase é que Álvaro da Silva, presidente da sociedade, há dez anos, se recorda. ''Meu pai foi presidente da casa, fundada para os negros, mas que é aberta a todos. Aqui aconteceram assembléias e encontros de diversos segmentos da sociedade. Tínhamos também a famosa domingueira, com muita batucada e samba, que estamos resgatando agora com a juventude do Maracaeté, um fôlego novo e que se encaixa no perfil da sociedade'', diz Álvaro da Silva, de 60 anos, informando que hoje só há 40 sócios.
Depois de 1950, a sociedade só foi reformada novamente, em 1996, pelo município. De acordo com Ricardo Bindo, assessor de planejamneto do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), a Treze de Maio foi revitalizada com recursos da venda de potencial construtivo, apesar de não ser considerada uma unidade de interesse de preservação (UIP). ''O edifício em si não tem um valor arquitetônico, mas a sociedade sim tem valor histórico e cultural, por isso, ela ganhou uma reforma geral como uma unidade de interesse especial de preservação, pensando em manter a organização e garantir as atividades da casa como os bailes populares e festas'', informa Bindo. (F.G.)

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