Uma casa, dois clubes, duas igrejas. Prédios antigos da capital que chamam a atenção pela beleza e imponência das construções. Só que nos últimos tempos, eles vêm chamando a atenção por um outro detalhe, no mínimo, polêmico: todas teriam sido rotas de túneis construídos em Curitiba, no século passado.
  Quem está empenhado em desvendar os mistérios que envolvem uma casa nas Mercês, Clube Concórdia, Sociedade Garibaldi, Igreja Matriz e Igreja do Largo da Ordem é o empresário Marcos Juliano Ofenbock, 29 anos. Curioso por natureza, como se define, ele teve o interesse despertado após ganhar um livro comprado por uma amiga, em Londres. A obra abordava a presença de túneis em vários lugares do mundo. Durante a leitura, Ofenbock foi surpreendido: Curitiba era citada como provável local de passagens subterrâneas, construídas na época da Segunda Guerra Mundial, que serviam para abrigo e deslocamento entre pontos-chave da cidade. ‘‘Ele passava pelas igrejas, porque em uma guerra elas não são bombardeadas, por exemplo’’, explica. A partir daí, não se sabe o que é verdade ou lenda, mas história é o que não falta.
  Há 38 anos morando nas Mercês, Acir e Leonira Sbalqueiro contam que o filho chegou a entrar no interior de um túnel que havia na região, cuja lenda afirma que terminaria no Largo da Ordem. A estrutura, segundo eles, contava com aberturas em forma de portas, fechadas com tijolos, além de duas pequenas salas, que podem ter servido para abrigar alguma família preocupada com possíveis ataques bélicos. ‘‘Para nós, esta é a versão que parece mais real. Mas acreditar que ele ia até o Centro, é complicado’’, avalia Leonira. ‘‘Se hoje, com tecnologia, é difícil, imagine fazer buraco naquele tempo’’, contesta Acir.
  O filho, Williams Sbalqueiro, hoje com 40 anos, tinha 12 na época. E relembra que para entrar era preciso coragem. ‘‘Era tipo um poço, onde a gente descia uns quatro metros em degraus feitos nos tijolos. Dava medo porque a escuridão era total, havia muitos bichos, como aranhas, e tinhamos que levar velas’’, recorda. Segundo ele, talvez seja possível que no lugar da porta fechada com tijolos houvesse uma passagem em direção ao Largo. ‘‘Ninguém nunca derrubou aquela parede para ver o que tinha atrás, mas quem sabe não era’’, opina.
  Celso de Souza estudava, há 30 anos, em um colégio ao lado da famosa casa das Mercês. Na época, em companhia de amigos, também chegou a entrar na ‘‘boca’’ do túnel, mas o grupo não foi muito longe: encontraram no medo uma barreira. ‘‘Havia muita história de gente que entrou e não saiu mais, como padres e um grupo de escoteiros. Não sei se é verdade, mas quem ia se arriscar?’’, questiona. Quis o destino que hoje Souza fosse porteiro do Clube Concórdia, outro ‘‘personagem’’ dos ‘‘causos subterrâneos’’.
  Situado próximo às Ruínas do Centro Histórico, o Concórdia estaria no itinerário de uma passagem sob a terra que ligaria o Clube à Sociedade Garibaldi - pelo menos nas versões de antigos sócios. Mas para o que ela teria sido utilizada, ninguém sabe. ‘‘Uns contam que foi feita na época da Primeira Guerra, outros acham que foi na Segunda. Falavam que pode ter sido idéia de europeus, que vieram pra cá na época da imigração, com idéias de rotas de fuga. Mas o que temos de mais evidente é apenas uma entrada, que poderia ser do túnel e hoje está bloqueada por uma parede de concreto’’, revela o presidente do clube, Cláudio Mader.
  Na Sociedade Garibaldi, apenas indícios. E pouco se fala no assunto. ‘‘Falam desse túnel, mas não podemos afirmar se existiu’’, conta o presidente, Celso Gusso.
  Pelas ruas, quem ouve a história não acredita muito. ‘‘É meio louco isso, né. Eu duvido’’, contesta a aposentada Regina da Silva. Já o mecânico Josias Carvalho questiona a segurança dos locais. ‘‘Se tem mesmo túnel, será que não é perigoso desabar tudo?’’, preocupa-se. Inicialmente, a empresária Arlete Martins fica com o pé atrás. ‘‘Como assim?’’, surpreende-se. Mas depois diz que não duvida, nem mesmo na dificuldade que haveria em se construir uma passagem subterrânea que cortasse a cidade, há mais de 50 anos. ‘‘Para roubar aquele banco, em Fortaleza, eles não conseguiram? Pode ser que tenham feito esse buraco aqui também. Sem falar que essa de tecnologia para fazer as coisas não cola, senão as Pirâmides do Egito não existiriam’’, argumenta.
  E é para acabar com as dúvidas e lendas que Ofenbock, com a ajuda do jornalista Alexandre Costa Nascimento, 24 anos, segue na pesquisa iniciada no ano passado. ‘‘Estamos recebendo várias informações de outros pontos com ramificações desses túneis, então vamos nos aprofundar e checar’’, conta o empresário. Para completar o trabalho, a dupla planeja o lançamento de um livro ou documentário, patrocinado pela Lei de Incentivo a Cultura. O projeto deve ser apresentado na Fundação Cultural até julho. ‘‘Será o resultado da pesquisa, um documento com depoimentos e fotos, para que todo o esforço não fique no vazio’’, argumenta Nascimento.

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