Missão para sempre: escrever o Editorial
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 13 de novembro de 1998
Estelio Feldman 
Quem fazia o editorial então era o João Rímoli que era, também, sem dúvida, a verdadeira consciência do jornal. Ponderado, inteligente, João funcionava mesmo como um tipo de orientador espiritual de todos nós. Ensinava que a gente tinha de respeitar o leitor, usava o bom senso em sua atividade como jornalista e como ser humano, tinha idéias firmes e era coerente porque aplicava na vida o que pregava na atividade profissional. Não queria tirar-lhe o lugar, queria ser um dia seu substituto.
Quando João Rímoli foi embora, em 65, junto com o Nilson, tornei-me o editorialista. Foi uma coisa que, na época, pareceu natural. Foi seu João Milanez quem o estabeleceu, poucos meses antes de João Rímoli deixar a Folha.Arquivo FolhaAnos 60João Rímoli, na Redação da Folha: consciência e orientação de todos
De então para cá já fiz muita coisa, no jornal. Na verdade, fiz quase todas as seções, trabalhei em quase todas as editorias. Numa época, enquanto rodava pelo Paraná com o Mineiro, quase nem aparecia na Redação: fazia as notícias onde estivesse. Mas jamais deixei de fazer o Editorial. Numa simbiose difícil de explicar, consegui sentir a filosofia de João Milanez, busquei inspiração na ponderação de João Rímoli, e, penso, acabei podendo retratar a idéia base da Folha um jornal sempre a serviço do leitor, da coletividade, da população.
Muitas mudanças aconteceram, como já escrevi antes, a Folha de hoje não é a mesma de há 38 anos. Penso que acompanhei estas mudanças, creio que ajudei a realizar algumas, entendo que a linha estabelecida por João Milanez com o fulcro básico na intenção de servir à coletividade atingida pelo jornal, no começo Londrina, depois o Norte do Paraná e agora o Estado inteiro, está sendo mantida.
Afinal, em 50 anos tudo muda. Entretanto, o ser humano ou pelo menos seus anseios básicos, sua busca pela justiça, seu desejo natural de ter condições adequadas de vida permanece imutável. E a gente tem tentado lutar por isto.
Além da sensação de ter, efetivamente, participado e contribuido para que a Folha chegasse aos 50 anos de vida, que é, talvez, um modo de justificar os 38 anos que passei aqui, o que mais marcante está em minha memória e em minha vida são as pessoas que conheci e com quem convivi ao longo deste período que, visto agora, parece tão curto.
Assumindo até o risco, natural, de esquecer alguém, ainda assim entendo que, na edição em que se celebra os 50 anos da Folha preciso citar algumas das pessoas que passaram por aqui neste tempo.
Já citei algumas: o Nilson Rímoli, sem dúvida, mestre e amigo, o João Rímoli, orientador de todos nós, Militão, Walmor, Wilson Silva, José Carlos Abrahão, Nelson Severino, o famoso Morcego. Mas há tantos mais. Há o Carlos da Silva, que foi meu mestre imediato quando cheguei, que me ensinou que paralisar se escreve com ésse, que me orientou mais até do que ele possa imaginar ou lembrar. E, também, naqueles primeiros tempos, quando a Folha fazia um extenso noticiário internacional e dependia dos telegrafistas, não se pode esqueder Herbert Hanisch, vítima da guerra mas um profissional fabuloso, o Stremel, o Hugo Santana, depois o Toninho, que trabalhava no Correio e aqui e que morreu tão jovem.
E os fotógrafos! O Augusto Galante, primeiro, único e fabuloso, por anos o grande nome da fotografia, o compaheiro de muitas viagens. Não se pode esquecer o Daniel Martinon que veio da Espanha (Ilhas Canárias, eu acho) para dar a Londrina, e à Folha, uma contribuição enorme. Não dá para deixar de citar também o Chico Rezende, irmão do Claret, fotográfo jovem, uma pessoa linda, morto também tão jovem. E o Vagno Barra Rosa, o Josoé, o Dorico, o Nilton Dória, o Xuxo ou Xuxulin - claro, José Pedro de Lima.
Tem também a Oficina, com o Bugre, o Pedrão, o Tertuliano, o Jaraguá, o Leitão, o Mineiro - depois meu sócio e compadre - o Zapata, o Armandão, o Pítia, claro, o Mané, o Nelson Tequinha, que foi meu genro e também já morreu, o Irmão, o Reinaldo Grotti, o Nenê. Há também os da circulação, o Valdir, o Ivo, os motoristas, o Manezão, o Gélio, o Paulão, o Sidney, o Walter Lupércio, o Douglas... E cabe também a lembrança ao Geraldo Ferreira, falecido há dias, responsável pela base administrativa do jornal.
E na Redação, os que foram vindo, o Claret de Rezende, que considero uma espécie de aluno que superou o mestre, o Isnard Cordeiro, quase há tanto tempo quanto eu, o Ângelo Gaioto Filho, já falecido, grande repórter, o Rui Brito, meu cunhado, o Dr. Vergara, sábio e magnânimo, a nos ensinar tanta coisa, o Jota Oliveira, sem dúvida, que já citei, as moças que vieram enfrentando os preconceitos, primeiro a Cristiani Helena Lourenço, depois a Rose Arruda que nos trouxe de presente seus irmãos, o João, o Carlão, o Roldão...
E o Délio Nunes César, que eu trouxe para a Redação junto com o Leonardo Henrique dos Santos e o Otoniel de Souza, colegas da Faculdade de Direito que perderam o emprego quando a estupidez da ditadura empastelou a Última Hora, e o Edilson Leal, que veio de Brasília para trabalhar aqui e ser também colega de Faculdade.
Não poderia, de modo algum, esquecer o grande amigo, a imensa figura que fez tanto pela Folha, que a tantos ajudou, e cuja ausência é ainda dolorosa, o querido Álvaro Grotti. Não citei todos nem todas. Bem poucos.


