Missão de livreiro
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quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
Rafael Urban<br>Equipe da Folha 
Logo que chegou em Curitiba, em 1975, Eleotério de Oliveira Burrego prometeu a si mesmo que não trabalharia mais com livros. O primeiro emprego na distribuidora Ao Livro Técnico não o animava. ''Eu era essa pessoa cru que veio do interior; não tinha esse gosto pelo livro.'' Parece até ironia mas o jovem nascido em Andradina, filho de pais analfabetos e que trabalhou como boia-fria no interior de São Paulo, logo seria parte da história do livro no Paraná.
A sua carteira de trabalho marca o dois de janeiro de 1976 como o primeiro dia de trabalho na Livraria do Chain, em que recebia Cr$ 494,40 mensais - ''mais um extra pago à vista''. A relação com o livreiro experiente, dono do negócio desde 1962, faria com que Eleotério abandonasse os planos do curso de Engenharia, sonho desde a adolescência. ''O Chain foi um pai. Me criou para o livro.'' Hoje, o aprendiz é colocado no mesmo hall do mestre. ''Ao lado de José Ghignone e Aramis Chain, o Eleotério faz parte da história do livro e de muitos leitores em Curitiba. Cada um do seu jeito'', opina Marta Morais da Costa, professora de Literatura da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e sua cliente de carteirinha.
No Chain, ele trabalhou até 1997 - em 1986, abandonou a cidade e o emprego por três meses, o que considerou um equívoco: ''Quando você quebra o vaso é difícil de consertar'', diz. Na livraria, conheceu escritores, professores e apaixonou-se pelo livro. ''Eu atendia ao Dalton Trevisan mesmo sem saber que era ele. Um dia, um amigo falou: 'mas é claro que você conhece o Dalton, está sempre falando com ele'.'' Na biblioteca de sua casa em Curitiba - vive em São Paulo desde o dia dois de janeiro de 2008 - Eleotério guarda livros autografados por diversos escritores paranaenses, muitos dos quais tem como seus amigos.
''É o melhor livreiro que conheci. Sempre em contato com as pessoas, lê muito e sabe o que dizer'', comenta Marcos Antonio Kamaroski, 42, que foi seu colega de trabalho e mais tarde sócio, quando abriu a própria livraria. ''Eu via os clientes crescendo na vida, comprando apartamentos e carros e não conseguia fazer isso com meu salário. Pedi um aumento, o Chain não aceitou e resolvi sair'', lembra Eleotério. O fim da união não foi amigável. Insatisfeito com o valor da rescisão, Eleotério foi à Justiça e ganhou uma causa trabalhista. ''Hoje, para o Chain, meu nome é impronunciável. Processá-lo, para ele, é pior do que insultar a sua família.'' Até hoje, os dois não se conversam.
''É inegável que ele conhece livros, mas a nossa relação foi terrivelmente péssima'', comenta Aramis Chain, que prefere evitar falar no assunto. ''Tudo o que ele sabe aprendeu aqui'', diz. Ainda em 1997, com o apoio de dois sócios paulistas, Eleotério abriu a primeira livraria que levava o seu nome e que durou por um ano, até agosto de 1998. Dois meses depois, inaugurava, na Rua Amintas de Barros, 144, o espaço guardado na memória de muitos leitores: a Livraria do Eleotério.
A Livraria
''Chamávamos o cliente pelo nome. Quando chegava um livro do seu interesse, telefonávamos para a sua casa. Os volumes eram divididos em temas específicos; havia uma estante apenas para Freud, outra para Lacan'', lembra Maria Helena Morimitsu, 33, que trabalhou por três anos e meio na livraria. O farto acervo, distribuído na loja de 270 metros quadrados, era formado principalmente por livros da área de Humanas e tinha muitos de seus clientes vindos da UFPR, além de escritores e comunidade em geral - Eleotério levou consigo uma legião de admiradores.
''Conversávamos bastante. Ele sabia e conhecia o que eu queria, o que ajuda muito para nós que trabalhamos com cultura. É um tipo de relação que, infelizmente, não existe mais'', comenta a professora Marta. ''Hoje, nas livrarias, é pegar o livro na estante e ir direto para o caixa.'' Eleotério concorda com a tese de Marta. ''Depois do que o Chain foi nos anos 1980 e da minha livraria, Curitiba não teve nada parecido. Há muitas pessoas que se dizem livreiros, mas que não lembram da última vez que leram um livro.''
Apesar do sucesso e do grande fluxo de clientes, o negócio, já de início, não ia bem. Eleotério dava 20% de desconto em seus livros para professores, alunos, escritores e aos clientes antigos. ''E com os outros 20%, tínhamos que pagar funcionários, manutenção, aluguel. Eu tentava mostrar, mas o Eleotério, que é muito teimoso, não conseguia ver que a conta não fechava'', afirma Diva Furlan de Brito Burrego, 49, mulher do livreiro desde 1979.
''Não poderíamos nem ter começado. Tínhamos a fama, os clientes, um bom atendimento. Mas faltava um elemento fundamental: o capital. Começamos um grande negócio sem ter dinheiro'', afirma Eleotério. A crise da livraria se agravava; as dívidas cresciam, os livros paravam de chegar e a falta de capital impedia o negócio de manter um acervo tão diverso. As encomendas, rápidas ao ponto de estar na loja em poucos dias, demoravam. ''Eu não estava nada bem. E a casualidade se reuniu com a desgraça.''
Em coma
O escritor Carlos Dala Stella telefonou para Diva e ficou sabendo do incidente. Quando viu o rosto desfigurado de Eleotério, ficou espantando não apenas pela gravidade da agressão, mas pela semelhança que a imagem tinha com uma homenagem que havia feito ao livreiro. Em seu livro ''O Gato Sem Nome'', Dala Stella dedicou um capítulo, feito com recortes, que chamou de ''A dor de Eleotério'' (reproduzido nesta página).
Os jornais da época citam valores diferentes (R$ 40 e R$ 300), mas o fato é que, em um sábado de agosto de 2003, Eleotério, bêbado, foi levado a um terreno baldio em que foi espancado: depois de ser levado ao chão, o agressor, que nunca foi preso, pisou-lhe na cabeça. ''Os boatos foram muitos. Disseram que foi um atentado da Associação das Fotocopiadoras, pois eu criticava a cópia do livro. Outros falaram que foi um agiota que mandou me apagar. Eu acredito que foi pelo dinheiro que carregava na carteira.''
Os médicos deram poucas esperanças. Maria Helena, ex-funcionária, enviou um e-mail aos amigos contando a história e pedindo que fossem até a livraria para comprar livros na tentativa de salvar o negócio querido por tantos. A mensagem foi multiplicada e muitos, alguns clientes que não apareciam há tempos, foram até a Rua Amintas de Barros. ''Chegaram a confundir e acreditar que estávamos pedindo doações, mas o Eleotério foi atendido pelo SUS.''
''Como um milagre, eu sobrevivi. Mas a livraria não teve jeito.'' Eleotério ainda lembra que alguns amigos se reuniram para fazer um fundo para manter a livraria aberta. ''Muitas pessoas tinham se proposto a ajudar. A ideia é que cada um entrasse com mil reais.'' Segundo seus registros em um caderno, o valor que poderia ser reunido era de R$ 240 mil. Como as dívidas chegavam a meio milhão, ele decidiu fechar o negócio, o que aconteceu em abril de 2004. Depois, Eleotério trabalhou na Livraria Guerreiro até o seu fechamento, em 2007. ''Lá era bonito o design. Mas era só'', diz Eleotério, que tem 52 anos.
Sem uma boa opção de trabalho na Capital, desde o dia dois de janeiro de 2008 está trabalhando em São Paulo, onde é o gerente da Livraria Martins Fontes da Praça do Patriarca. ''O balcão da livraria é o meu palco. E esse palco fica em Curitiba. Já estou criando raízes em São Paulo, mas não queria isso. Ainda sonho em voltar.''
Crônica
"Na esquina em que se localizava a Livraria do Eleotério, instalou-se uma farmácia. Há certa lógica nessa sucessão: a livraria expunha e vendia remédios para o espírito e para a cura da ignorância. Mas, ao olhar as portas da farmácia, é inevitável experimentar a nostalgia de um tempo feliz. As esquinas, ao quebrarem a continuidade da linha reta, oferecem ao transeunte a possibilidade do encontro inesperado na curva do caminho. Era essa a expectativa dos visitadores - palavra antiga e indagadora - da esquina onde estava a Livraria do Eleotério."
* Marta Morais da Costa, em texto publicado no livro "Mapa do Mundo - Crônicas sobre Leitura", da Editora PUC Rio.


