Missão da reportagem: acompanhar a apuração do desfile das escolas de samba do Carnaval curitibano. E lá fomos nós, em pleno domingo, para o Memorial de Curitiba, onde uma comissão executiva da Fundação Cultural do município faria a contagem dos votos.
No horário marcado, às 15 horas, já parecia estar tudo pronto para a abertura dos envelopes com as avaliações dos jurados. Parecia. Porque o primeiro voto só foi revelado com 40 minutos de atraso. Coisas do Brasil...
Enquanto isso, uma geral rápida no ambiente. O Teatro Londrina, dentro do Memorial, seria o palco para a divulgação das notas. Ali, cerca de 15 pessoas aguardavam sentadas, entre funcionários da Fundação, diretores de escolas e jornalistas.
Cadeiras de plástico, uma televisão de 29 polegadas e um par de autofalantes foram colocados do lado de fora do auditório, para que as torcidas das seis escolas acompanhassem a apuração. Pouco mais de 100 pessoas apareceram, um número reduzido se levarmos em conta que cada agremiação desfilou, em média, com 160 componentes. Ainda assim, estava claro onde deveríamos ficar: na área externa, com a "galera".
Presidente e único representante da Unidos do Bairro Alto, concorrente do Grupo B, Toninho Guedes abordou a reportagem para fazer uma "denúncia". Contou que a rival Os Internautas apresentou na avenida carros alegóricos e adereços comprados de escolas de Antonina e Paranaguá, que saíram na sexta-feira.
"Assim não tem graça. O gostoso é ver a garotada da comunidade queimando a mão com cola quente. Entramos com um recurso, mas acho que não vai dar em nada", disse o dirigente, que ao longo do ano se divide entre o barracão e a Câmara de Vereadores, onde trabalha como assessor parlamentar.
Quando a apuração finalmente começou, os temores de Toninho se confirmaram. Seu recurso havia sido indeferido, sem direito a contestação. De acordo com a comissão executiva, esse tipo de situação não consta no regulamento. Os Internautas, portanto, continuavam no páreo - e, a despeito do nome, até que levaram um grupo animado de torcedores ao Memorial.
Mas o recurso de Toninho não se fez necessário. Logo de cara, foi anunciada a desclassificação da Unidos de Pinhais, que desfilou com 35 componentes a menos do que o mínimo exigido. E, a cada envelope aberto, percebia-se que Os Internautas não teriam fôlego para chegar lá.
No fim, vitória do Bairro Alto, que também ganhou o direito de participar do grupo principal em 2010. "O pessoal ficou indignado com esse negócio de comprar carro dos outros e não veio. Foi uma pena", afirmou Toninho, que recebeu um troféu simbólico da Fundação.
Simbólico? "É, eu não entendi direito. Parece que eles tiveram uns problemas técnicos. Desculpe, estou muito emocionado", tentou explicar o campeão solitário.

Tropa de elite
Encerrada a primeira etapa, era hora de saber quem levou a melhor no Grupo A, a elite do samba dos pinheirais. O Memorial estava bem dividido entre os torcedores da Acadêmicos da Realeza, Embaixadores da Alegria e Leões da Mocidade. Mas apenas os integrantes desta última esboçaram uma curta sessão de cantoria antes da apuração.
Lá se foi outra meia hora de penalizações, votos e justificativas dos jurados (gente do meio artístico local, como o diretor de teatro Edson Bueno e o músico Vina Lacerda). E nem foi preciso chegar na metade da contagem para concluir que o título ficaria com a Acadêmicos da Realeza, cujo enredo homenageou o centenário do Coritiba Futebol Clube.
Dito e feito. A escola marcou 160 pontos, contra 150,5 da Embaixadores e 143,5 da Leões. É a segunda conquista seguida, e a sétima de sua trajetória de 13 anos.
Como não haverá descenso para o Grupo B em 2010, os torcedores da Leões não estavam amargurados. Pelo contrário, mostraram-se até conformados. "Valeu, foi justo. Algumas coisas saíram erradas para nós, mas fomos guerreiros", afirmou o mestre-sala Jeandro Moura, acompanhado da porta-bandeira (e companheira) Wanely.
Um pouco mais indignada, a turma da Embaixadores descarregou a mágoa nos juízes. "Eram todos coxas-brancas", e continuou: "Não dá para entender uma diferença de pontos tão grande. O enredo deles não dizia nada com nada", reclamou a diretora Mara Rúbia Franco.
Ela sugere, para 2010, a formação de um júri composto por especialistas do Rio de Janeiro ou São Paulo. Sobre a verba um pouco mais reforçada que a escolas receberam da Fundação Cultural neste ano, a dirigente é enfática: "O Carnaval melhorou, sim. Só que ainda vamos precisar de mais dinheiro para fazer um desfile realmente decente".
Lamentações à parte, os bicampeões atribuíram a conquista ao seu potencial de organização. Segundo Solange Santiago, ex-diretora da Acadêmicos, o investimento público ajudou, mas boa parte dos recursos veio da venda de ingressos para os ensaios da escola.
"A comunidade se uniu e chegou bonita na avenida. Quando o desfile termina, a gente meio que sabe se foi bem ou não. E dessa vez eu tinha certeza de que ganharíamos", garantiu, em meio à comemoração dos outros torcedores.

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