Miséria desordenada
Nós morávamos em São Jerônimo da Serra (interior do Paraná), trabalhando na roça, carpindo, plantando algodão, um serviço mais brutal. A gente era arrendatário e pagava aluguel na casa. Viemos pra tratar dos filhos, todos eles desnutridos, e como minha mãe já estava aqui, ficamos morando com ela.
A história contada por Amélia Vieira, 64 anos, junto com o marido, Alfredo, 65, ambos catadores de papel, remonta ao início dos anos 60 e se passa na favela da Marízia hoje gentilmente denominada vila uma das mais antigas de Londrina. O casal ainda reside lá. É uma história muito parecida com a de milhares de outras pessoas que chegaram à cidade nas décadas seguintes, ou mesmo há alguns meses, semanas, dias atrás. Gente que vem a Londrina de outras partes do Estado ou País para fugir da fome e do desemprego, e acaba caindo no trabalho informal, permanecendo na cidade em locais precários.
Segundo o professor de economia da UEL Miguel Arturo, existem hoje no município pelo menos 1,5 mil catadores de papel, contando apenas aqueles que estão fora da rede de coleta oficializada pela prefeitura. O endereço desses trabalhadores são as favelas, assentamentos e ocupações, uma porção da cidade que, para Arturo, está se expandindo mais do que qualquer outra.
A Londrina marginal cresce muito mais do que a formal. A Londrina dos catadores de papel, onde se tem mais filhos e mais mortes violentas, é maior que a Londrina de classe média e carteira assinada, assinala. Pelos registros da Folha, cerca de 30% dos assassinatos ocorridos na cidade este ano aconteceram nos bairros mais precários.
Em meio a esse universo, cidadãos como a cozinheira Rosângela Rosa Braz, 52, moradora do Jardim Maracanã (Zona Oeste), só conseguem manter uma esperança condicionada. Ela olha na direção dos condomínios de luxo da Zona Sul, não muito distantes de sua casa improvisada, e diz: Eles, os ricos, tiveram mais oportunidade. Eu bem queria um lugar sem tragédia para criar as crianças. Acho que meus filhos terão uma vida melhor do que eu, se tiverem estudo. Mas não sei se o meu menino mais velho vai continuar na escola ano que vem porque não temos mais dinheiro para comprar material. (V.N.)





