Miscelânea de sulistas
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quarta-feira, 19 de setembro de 2007
Flora Guedes<br> Equipe da Folha 
Não existe um levantamento oficial que aponte a população de catarinenses e riograndenses que moram em Curitiba. Sabe-se que são milhares. E que residem aqui mais catarinenses do que gaúchos. Boa parte deles se concentram na região do Sul da cidade. Vale frisar, que estas informações são frutos da observação e também da especulação. Mas é bem verdade, que não é difícil tropeçar com um representante dos estados vizinhos do Sul em uma esquina de Curitiba.
O ceramista, vitralista e mosaicista Adoaldo Lenzi ficou famoso por executar trabalhos de Poty Lazarotto, Juarez Machado entre outros artistas. Descendente de italianos, nasceu em Jaraguá do Sul, em Santa Catarina, e veio com a família para Curitiba ou ''Serra Alta'', quando tinha apenas 12 anos. Aqui já moravam outros sete irmãos, no bairro do Pilarzinho, onde se instalou com os pais. ''A nossa casa ficava à Rua Dom Alberto Gonçalves. Das oito residências que tinham lá, quatro eram de famílias catarinenses'', lembra Adoaldo, 62 anos, que concluiu o ensino médio no Colégio Estadual do Paraná.
Logo Adoaldo conseguiu emprego com o ceramista gaúcho João Genehr, com quem aprendeu um pouco do que sabe. ''Ele foi meu mestre, meu maior entusiasta. Sabia valorizar o trabalho de cada um. Aprendi observando o que ele fazia, mas sou também autodidata'', conta ele, dizendo que foi, em 1965, para o Rio de Janeiro, onde chegou a fazer arte dramática. ''Mas não me adaptei à rotina do Rio, muito barulho nunca fez minha cabeça e resolvi voltar a Curitiba e a trabalhar com Genehr. Em 1970, abri meu próprio atelier com o apoio dele'', acrescenta Adoaldo Lenzi, cuja história será em breve contada num livro.
''Curitiba já tinha enraizado dentro de mim. Sou muito provinciano, assim como a cidade. Nunca senti nenhum tipo de rejeição aqui. Até me chamavam de barriga verde, mas eu não ligava'', explica ele, contando que de catarinense ou de descendência italiana guarda o gosto pela culinária e de ter a casa cheia de amigos e parentes. ''Sou mais curitibano do que catarinense. Sempre fui muito respeitado na cidade, onde já completei mais 40 anos de carreira. Aqui realizei tudo o que sonhei e até aquilo que não sonhei. Tem um amigo que diz que sou um catarina que deu certo'', acredita Lenzi.
Assim como Adoaldo, nos anos 1950 e 1960, migraram para Curitiba muitos jovens catarinenses em busca de qualificação nas universidades, já que naquele estado ainda não havia muitas opções de cursos superior. Depois de formados, alguns catarinas iniciaram uma carreira brilhante na cidade e ganharam fama fora daqui: o cineasta Sylvio Back, o artista plástico Juarez Machado e o escritor e professor da Universidade Federal do Paraná Cristovão Tezza são alguns deles.
''Nasci em Lages (SC) e minha mãe resolver vir para cá com os quatro filhos em 1961, depois que meu pai faleceu. Eu tinha oito anos. Nunca mais saímos daqui'', resgata Tezza, acrescentando que não tem parentes em Lages. ''Estudei no Grupo Escolar Tiradentes, depois fiz o 5º ano no Zacarias, porque levei pau no exame de admissão do Colégio Estadual. Depois passei lá, onde estudei os quatro anos do ginásio e os três do científico'', detalha o escritor, dizendo que sua relação com a terra natal se fez, mais tarde, por outras vias; foi professor da Universidade Federal de Santa Catarina nos anos de 1986 e 1987.
União - A enfermeira Karolinne Lobato, de 28 anos, e o médico anestesista Rafael Lobato, de 31 anos, moram em Curitiba, desde março de 2006, com a filha, Joana, de três anos. Ela é natural de Florianópolis (SC) e ele é de Porto Alegre (RS). ''A gente morava em Criciúma (SC) quando o Rafael recebeu a proposta de emprego para trabalhar aqui. Não pensamos duas vezes. Foi uma boa decisão. Não pensamos em voltar para Floripa, nem para Porto Alegre'', disse Karolinne, que pretende abrir uma clínica de estética na cidade.
A enfermeira diz que amizades com conterrâneos, em Curitiba, se resume ao pai da amiguinha de escola da filha, que é catarinense de Concórdia. ''A gente se adaptou bem, mas o primeiro ano foi estranho. Sinto falta apenas do lazer com o qual estava acostumada em Floripa, que é a praia. Mas Curitiba compensa com os parques, cultura e variedade gastronômica. Eu e minha filha temos o hábito de comer peixe e frutos do mar. Pelo menos, uma vez por semana, preparo em casa, tudo fresquinho'', confessa ela, dizendo que os hábitos gauchescos que o marido preserva são comer muita carne, tomar chimarrão e a fissura pelo surf.


