Depois de anos dedicados ao trabalho na Polícia Militar, cabos, sargentos e coronéis se aposentam como todo trabalhador, isto é, vão para a reserva, como se diz. Mas a identidade formada na convivência intensa dos tempos de quartel permanece viva mesmo após o afastamento da rotina diária.
  ‘‘A minha vida inteira fui policial e continuo sendo’’, afirma orgulhoso o coronel da reserva Buridan de Paula Xavier. Aos 87 anos, ele é um dos mais antigos da corporação e foi homenageado ontem durante a comemoração pelo dia da Velha Guarda Miliciana, realizada no pátio do Quartel do Comando Geral da Polícia Militar do Paraná, no bairro Rebouças.
  Xavier se emocionou durante o desfile dos colegas da ativa ao som da banda da Polícia Militar. Acompanhado do neto, ele viu o que viveu no passado voltar diante de seus olhos. ‘‘Tudo isso faz a gente regredir àquele tempo. É uma regressão muito dolorosa porque a gente gostava tanto’’, explica. Xavier entrou como praça na corporação 72 anos atrás, para poder estudar. ‘‘Eu tinha 14 anos, vim do interior. Tenho saudade dos colegas, da convivência’’, conta.
  Para outro homenageado, o cabo Francisco Santos Miranda, de 65 anos, na reserva desde 1996, ser lembrado é muito importante. ‘‘Convivi com isso aqui 32 anos, dá saudade. É como se fosse a minha casa’’, justifica. Segundo o comandante geral da PM, coronel Nemésio Xavier de França Filho, a comemoração é uma forma de agradecer e reconhecer os bons serviços prestados pelos militares que hoje estão na reserva. ‘‘É uma história de sofrimento, luta, distância da família que nesse momento reconhecemos e agradecemos’’, afirma. ‘‘Tradicionalmente cultuamos nossos heróis e nessa solenidade homenageamos os heróis anônimos’’, completa o
comandante.
  Aposentado desde 1978, o cabo Joaquim de Freitas Padilha, de 82 anos, também ficou grato pela homenagem e relembrou o tempo em que vestiu a primeira farda. ‘‘Quando entrei aqui, esse pátio nem asfalto tinha’’, lembra. O militar mais antigo a ser lembrado foi Ubiratan Sanches Agulham. Mesmo com dificuldade de locomoção e comunicação decorrentes dos 93 anos de idade, ele foi até o quartel receber sua homenagem. ‘‘É uma satisfação muito grande’’, declarou o coronel, que está na reserva há 55 anos.
  Para as futuras policiais militares, alunas do Colégio Militar, Lariani Meiado e Lisiane Miranda, ambas com 15 anos, a homenagem aos mais velhos é um incentivo para quem pretende seguir a carreira. ‘‘Eles já estiveram no mesmo lugar que a gente. Dá uma sensação de orgulho, parece que a gente é importante. E mesmo que não seja, um dia vamos ser’’, observa Lariani. ‘‘A gente fica feliz. Pensa: quando eu estiver lá, vai ser assim também’’, conclui Lisiane.

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