Passo meus dias tentando fugir dos meus próprios atrapalhos. Como corro mais do que respiro, enfrento toda sorte de vexames. O pior deles acho que ocorreu na minha infância. Metida a homem da casa (apesar de ser a única mulher entre quatro irmãos), enfrentava primeiro todos os desafios. Se ouvia um barulho, era a irmã que procurava o ladrão. Sempre fingindo ser forte. Mostrando não ter medo de nada.
Certo dia, na chácara da família, resolvi que iria agradar o touro que corria em minha direção e de meus irmãos. Enquanto eles subiam afoitos as árvores, fiquei ali. Parada. Sorrindo. O touro, que chamávamos de Kadico, parou na minha frente e começou a bater a perna traseira como se fosse me avançar. Senti calafrios. Mas não esmoreci. Passei minha mão sobre a cabeça do touro.
A reação dele foi a pior possível. Corri. E ele veio atrás. Como se não bastasse escorreguei naquilo mesmo que vocês estão pensando. Com as pernas para cima e rodando rapidamente em círculos, comecei a espantar o touro. Os pés encaixavam nos chifres para evitar que eles me atingissem. E as patas? Era melhor não pensar. Não podia gritar. Pioraria a situação. Meus irmãos estavam de mãos atadas. O medo impedia que qualquer deles descesse da árvore para me ajudar. E olha que dois deles eram mais velhos do que eu.
Enfim, foram minutos intermináveis até que meu padrasto percebesse a situação e fosse me salvar. Nem preciso dizer que o Kadico teve que deixar o mundo dos vivos após essa funesta situação.
Micos parecidos me perseguiram. Já caí nas escadarias do Hotel Bourbon e quebrei o nariz na porta de vidro da Administração do Porto de Paranaguá.
Sempre tento descobrir se eu atraio os momentos vexatórios. Ou se eles nos acompanham mesmo. Afinal, todos nós, os humanos, estamos expostos a esse tipo de circunstância.

mockup