Meu primeiro filho
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Diogo Cavazotti<br>Equipe da Folha 
A gravidez na adolescência preocupa a maioria dos pais com filhos na faixa dos 15 anos. A conversa sobre educação sexual nem sempre é fácil, pois os jovens não sentem liberdade em falar sobre este assunto com os próprios pais. Na escola as palestras nem sempre conseguem atingir todos os alunos pois muitos deles ficam com vergonha de tirar as dúvidas na frente da turma. Assim, uma escola de Curitiba resolveu elaborar um projeto que faz os alunos aprenderem na prática como é cuidar de alguém.
Os 160 alunos que este ano estão na 7ªe 8ªséries da Escola Atuação têm a tarefa de cuidar de pintinhos. Os jovens que estão na 7ªsérie, com aproximadamente 12 anos, ficam por duas semanas com as aves. Eles levam para casa, alimentam, colocam para dormir e levam diariamente para a escola, onde deixam na creche dos pintinhos.
Na hora do intervalo os alunos correm até a creche para ver como estão os filhos. Cada um identifica o pintinho da maneira que prefere. Alguns pintam as penas com cores diferentes e outros colocam pequenas pulseiras nas patas.
Segundo a pedagoga da escola, Vera Kussek, o projeto tem dois objetivos. O primeiro deles é fazer com que o jovem saiba como é difícil e trabalhoso ser responsável por um ser vivo. Assim, percebe que cuidar de outra vida não é brincadeira. Além disso eles também manifestam a afetividade e a valorização pela vida.
Os alunos também conseguem falar mais abertamente sobre sexo e gravidez quando passam por esta experiência. Tem uns que são maiores que eu e choram quando o animal morre, conta Vera. Um jovem preferiu não falar com a reportagem, pois ainda estava muito triste com a morte da sua ave.
O projeto dá resultado se aliado com outras atividades realizadas pela escola. Palestras com ginecologistas, psiquiatras e mães que engravidaram ainda jovens auxiliam para levar a idéia em diante. Nos últimos três anos apenas uma adolescente engravidou após sair da escola e ingressar no ensino médio. O trabalho realizado é de prevenção da gravidez precoce.
E se a responsabilidade dos alunos é grande no cuidado com os pintinhos, os pais também ajudam. Muitos deles se comportam como avô e avó do bicho. Outros ainda brincam com os filhos e dizem que estão com vontade de comer uma canja de galinha e irão cozinhar a ave.
Novo lar
A escola possui uma sede no bairro Santa Quitéria e os pintinhos são encaminhados para lá ao término do projeto. Os alunos também podem ficar com o animal. É o que vai fazer Gabriela Mença Possani, 12, que possui uma chácara com viveiro para guardar a ave. Muitas colegas da turma já falaram que irão entregar o filho para ela levar para a chácara. Cuidar de outro ser vivo é bem difícil. Se fosse uma criança de verdade ia ser ainda mais complicado, diz Gabriela.
Edigard Polchlopek, 13, não tem problema para dormir com o pintinho no quarto, já que o animal não faz barulho durante a noite. Já a aluna Fernanda Sayuri, 12, não tem sossego. O seu filho não pára quieto e pia durante quase todo o tempo. Para piorar, ela tem medo de pegar no animal e cuida do filhote com o auxílio de um pequeno pedaço de tecido. Tenho medo dele fazer cocô em mim.
Aliás, a sugeira é a principal reclamação. Os pequenos animais já espalharam excrementos em cima da cama, no chinelo do pai e em diversos espaços da casa. Se fosse limpar a sujeira de um bebê ia ser bem mais difícil, opina Larissa Miyashiro, 12.
O projeto desenvolvido pela Escola Atuação envolve toda uma preparação aos alunos antes da entrega dos animais. Os jovens passam da situação de tutelado para a de tutelar. Assim, aprendem a importância da vida e da responsabilidade que isso implica, conta o professor de filosofia da escola, Alexandre Lopez.


