Para ajudar a completar o orçamento mensal, muita gente transforma o local de trabalho e a sala de aula num ponto de venda de objetos diversos, que vão desde bombons até aparelhos eletroeletrônicos, passando por cosméticos e bijuterias. Atire a primeira pedra quem nunca ao menos olhou um catálogo de produtos como Avon, Natura e outros do gênero durante o horário do expediente. Ou então quem nunca recorreu aos quitutes que algum colega de classe vendia na hora do intervalo para saciar a fome.
A venda de produtos de terceiros nos ambientes corporativo e acadêmico é proibida pela maioria das instituições (veja reportagem nesta página), mas essa postura não intimida esses comerciantes informais, que vêem nos colegas clientes em potencial.
Entre as vantagens apontadas pelos adeptos dessa prática estão o alto grau de adimplência (dificilmente alguém deixa de pagar uma dívida) e o baixo custo. Além disso, a relação comercial se dá em um ambiente seguro, onde é possível garantir facilidades como parcelamentos e até mesmo adiar os pagamentos para a data de entrada dos salários. Afinal, vendedor e cliente são todos funcionários do mesmo empregador.
Stefanie Silveira, de 18 anos, começou a vender bombons no tempo de colégio e gostou da experiência. Ela conta que logo ficou conhecida pelos estudantes como ''a menina do bombom''. Hoje, na universidade, ela expandiu sua gama de ofertas e passou a vender doces em geral, produtos de beleza e outros acessórios de catálogo.
Com o dinheiro que arrecada, ela paga um curso de dança e a mensalidade da comissão de formatura. ''Já tenho uma certa clientela'', gaba-se. Aluna do curso de Publicidade e Propaganda, ela avalia positivamente essa estratégia de venda. ''Acho que ganho mais dinheiro assim, indo até o cliente, do que se abrisse uma espaço só pra isso'', teoriza.
Stefanie conta que nunca levou nenhum ''puxão de orelha'' da instituição onde estuda, que proíbe a venda de produtos não autorizados em suas dependências. ''Se tem algum problema (em vender produtos) eu não sei, mas já vi outras alunas vendendo semi-jóias, perfumes e bombons'', afirma.
Esse também é o caso de A.C., funcionária de uma grande empresa de comunicação, que prefere não se identificar. Há dois anos ela começou a vender produtos de estética aos colegas de trabalho. No início a prática servia apenas para custear os itens que ela mesma usava. ''Com o tempo percebi que mais gente gostava, daí eu juntei a fome com a vontade de comer'', brinca.
Ela afirma que não investe muito tempo e nem dinheiro nisso, mas reconhece que a atividade pode trazer uma boa renda para quem se empenha nessa prática. ''Vende sozinho, às vezes coloco o livrinho sobre a mesa e as pessoas vêm atrás'', conta. Segundo ela, a rentabilidade desses produtos pode chegar a 40%. ''Se me dedicasse mais poderia ganhar dinheiro'', avalia.
A profissional admite que a venda de produtos durante o expediente pode tirar o foco do trabalho, mas garante que só vende quando tem algum tempo livre, como na hora do almoço. ''Não dá para fazer quando a gente tá com pressa'', reconhece. Apesar da proibição da empresa, ela relata que já viu mais pessoas comercializando itens diversos no espaço de trabalho.
Outro adepto dessa prática é o motorista de ônibus Haroldo José Martins. Há três anos ele ''engorda'' sua renda trazendo produtos do Paraguai sob encomenda. Sua maior clientela são os colegas de trabalho. Com apenas uma viagem mensal ele afirma obter um lucro de até R$ 500. ''Dá para tirar um dinheirinho bom'', reconhece.
Comparando a clientela da empresa onde trabalha com as outras pessoas que atende, Martins avalia que é mais seguro vender para os colegas, pois com eles a inadimplência é zero. Como a prática é proibida pelo empregador, ele anota as encomendas mas faz as entregas em outros lugares. A clientela é grande, mas também rotativa, geralmente atende a cerca de 20 pessoas por mês. ''Reveza sempre'', diz.

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