A síndica do prédio Atlanta 3, no bairro Santa Quitéria, em Curitiba, não fica mais na janela, nem dá entrevista a jornais. Ela teme que a exposição lhe custe a vida. Desde que a área do condomínio foi invadida, em fevereiro deste ano, ela estaria sofrendo ameaças de morte.
Em maio, moradores de um condomínio vizinho que também teve sua área invadida organizaram um protesto contra as invasões. A resposta teria vindo de noite, quando pessoas desconhecidas invadiram o Atlanta 3 e destruíram a bomba de água. Esta não foi a única ação contra o condomínio, que já teve o cano do gás furado.
Se por um lado os moradores dos condomínios reclamam dos vizinhos indesejados, os invasores também têm queixas contra eles. O metalúrgico Francisco Antônio de Andrade, apontado pelos seus pares como uma das liderança da invasão, primeiro nega qualquer animosidade. Mas depois de algum tempo conversando com a reportagem, surgem as rusgas. ''Eles se acham melhores que nós porque estão num condomínio'', desabafa. ''Eles discriminam a gente''.
Os moradores do Atlanta 3 temem que com a invasão o preço dos apartamentos despenque. Um casal, que preferiu não se identificar, conta que comprou um imóvel no edifício no início do ano. Depois de 25 anos guardando dinheiro para o negócio, eles se mostram indignados com a situação. ''Estamos pagando imposto para eles morarem'', reclama o marido.
Do outro lado do muro, a ocupação já ganha ares de cidade. O maquinário pesado deu forma aos lotes, onde antes existia um grande matagal, e agora começam a ser construídas casas de alvenaria. Luz já existe, um ''gato'' foi puxado de um poste próximo. ''Quando a Copel vier e colocar um relógio a gente paga'', adianta Francisco.
O Santa Quitéria é um bairro essencialmente residencial. Não possui shoppings, grandes complexos comerciais, ou empreendimentos de alto padrão. A maioria de seus 11.720 moradores (segundo censo de 2000) pertencem à classe média. O Atlanta 3, um pequeno edifício de 2 blocos de 4 andares, foi construído em um terreno de 15.760 metros quadrados que abrigava mata nativa e até um pequeno córrego. Como é extensa, a área permite que a central de gás fique a uma distância segura do prédio, assim como a fossa, sobre a qual hoje estão as moradias dos invasores.
A pedido do condomínio, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente esteve no local para averiguar se a mata nativa estava preservada. O que os técnicos encontraram foi um olho d'água contaminado pela fossa do edifício, que o obrigou a uma reestruturação do seu sistema de esgoto.
Outro fato novo foi o acréscimo de R$ 300,00 na conta de água do Atlanta 3 nos últimos meses. Os moradores entrevistados são unânimes em suas suspeitas de que o aumento tem algo a ver com os novos vizinhos. O metalúrgico Francisco reconhece que ninguém na ocupação paga pela água que consome. ''Também é gato'', admite.
O que separa o Atlanta 3 da área invadida é um pequeno muro. Para impedir a invasão de uma parte do terreno onde está localizada a central de gás, o condomínio iniciou a construção de outro muro. José Tavares, segurança do edifício, relata que durante a madrugada flagrou um grupo de desconhecidos tentando derrubar o que já havia sido construído.
Os conflitos em torno da construção do muro foram confirmados por Francisco de Andrade: ''Era pra ser dois metros a mais de terreno, mas eles (o condomínio) puxaram o muro pra dentro''.
Além do Atlanta 3, duas áreas próximas, Atlanta 1 e Atlanta 2 foram invadidas no início do ano. Outros bairros de Curitiba também sofreram a ação de invasores.

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