Quando pousa os olhos sobre as plácidas e extensas águas da barragem do Passaúna, Rosália Pirog, de 77 anos, consegue enxergar além das imagens, na profundidade do tempo. ''Era ali que ficava minha casa'', diz ela apontando um ponto qualquer na imensidão.
A casa de Rosália, bem como a de todos os moradores da antiga colônia polonesa Tomás Coelho, em Araucária, Região Metropolitana de Curitiba (RMC), foi inundada em 1987, durante o processo de construção do reservatório.
Naquele local ficaram submersos não só os casebres de troncos e os armazéns dos imigrantes poloneses, mas também parte da herança ancestral e tradições, sob as quais se mantinha unida a comunidade.
Sônia Jaramiski Mica tinha apenas 17 anos quando as águas chegaram, mas lembra-se perfeitamente do sentimento de revolta dos moradores. ''O governo prometeu que iria remontar as casas e os armazéns em outros lugares, só que eles nunca fizeram isso. Tive que puxar minha casa com carroça'', conta ela.
Algumas das residências típicas dos imigrantes, feitas de troncos de árvores, foram levadas para o Bosque João Paulo II, em Curitiba. O restante, que não foi salvo pelos próprios colonos, hoje repousa embaixo de milhares de metros cúbicos de água.
Todos os moradores de Tomás Coelho foram indenizados pelo governo e estabeleceram residência em outras localidades. Alguns permaneceram próximos à barragem, como dona Rosália, outros foram para outros estados e municípios.
''Depois do alagamento, a colônia se dispersou'', conta Ziguemund Micoz, que nasceu na colônia São Miguel, vizinha à Tomás Coelho, que também foi inundada. ''Os polacos se espalharam tudo'', completa Sônia. Segundo ela, após a mudança, acabaram-se as missas na Igreja São Miguel, a maior da região, pois os colonos tinham que andar uma grande distância para contornar a barragem até o culto. ''Sobraram apenas as missas de domingo'', lamenta.
Pessoas foram
retiradas à força
Sônia relata que durante o processo indenizatório seu pai perdeu três alqueires de terra. Ziguemund também protesta e diz ter perdido dois alqueires. Situação semelhante aconteceu com dona Rosália, que além de perder terras, afirma ter perdido dinheiro na troca devido à desvalorização da moeda causada pela grande inflação da época. ''A gente tinha dinheiro, mas o que adiantava?'', indaga a anciã.
A construção da barragem do Passaúna, que começou em 1982, encontrou muita resistência, segundo o relato de antigos moradores da colônia Tomás Coelho. Sônia Mica conta que muitas pessoas tiveram que ser retiradas à força pelo governo. Outros aguardaram até o último momento para deixar suas residências. Segundo ela, logo que o local foi inundado alguns colonos ficaram ''ilhados'' por alguns dias nas novas residências ao longo da barragem. ''Não havia rua pra voltar, ficamos presos'', relembra.
O lavrador Ziguemund conta da tristeza generalizada entre seus irmãos e amigos ao terem que deixar o local onde nasceram. Apesar de oriundo de outra colônia, que também foi alagada, sua tristeza é a mesma de todos os polacos que se viram forçados a procurar outras terras. ''Acho que muita coisa ficou embaixo d'água'', lamenta.

mockup