Alguns artistas dizem que usam a arte para se curar. No Complexo Médico Penal (CMP), localizado em Pinhais (Região Metropolitana), a expressão pode ser aplicada literalmente. Há cerca de cinco anos, internos da unidade participam de aulas de educação artística e oficinas de arte. Eles têm a oportunidade de desenvolver habilidades em pintura, artesanato, confecção de maquetes e modelagem.
Para o CMP, que está com 440 internos, são encaminhadas as pessoas cuja pena é substituída por medidas de segurança e tratamento (a condição é verificada durante o processo por meio de laudo de sanidade ou de dependência toxicológica). De acordo com a diretora da unidade, Cinthia Maria Mattar Bernadelli Dias, atualmente 110 internos participam dos trabalhos artísticos. O segmento é uma parceria com a Secretaria de Estado da Educação.
''Nesse projeto, descobrimos grandes talentos, pessoas que nunca haviam segurado um pincel. Com isso, podemos realizar tratamento e descobrir habilidades que muitas vezes não haviam sido desenvolvidas'', explica a diretora. Ela aponta que o objetivo principal é a terapia e não estimular a utilização da arte como meio de vida.
Ainda assim, o ensino e as oficinas de arte do CMP renderam pelo menos uma história de um interno que descobriu uma vocação profissional dentro da unidade. ''Um interno começou a pintar mandalas dentro do CMP. Ele deixou o centro e soubemos que hoje ele vive da arte em Florianópolis. Ele até mandou algumas mandalas que pintou para a Alemanha'', comenta o professor Angelo Barros.
O contato com os pincéis, tintas e outros materiais desperta setores adormecidos da auto-estima dos internos. ''O primeiro objetivo é a socialização ativa deles, através de uma atividade que pode ser ocupacional ou até mesmo de desenvolvimento'', afirma a pedagoga Maria Aparecida Pereira dos Santos.
A divulgação dos trabalhos dos internos ajuda nessa afirmação positiva da personalidade. No CMP, as obras estão espalhadas por todos os setores da unidade. Além disso, duas exposições já foram realizadas no local e proporcionaram a confraternização de familiares dos internos. Algumas obras foram expostas em eventos fora do CMP. E reproduções dos trabalhos podem ser vistas no site www.oficinarte.pr.gov.br.
''Essa divulgação fora do CMP, além de aumentar a auto-estima dos internos, melhora o conceito que as pessoas de fora fazem da unidade. Nós mostramos que saem coisas bonitas daqui'', diz Barros.
O interno Vagner, de 33 anos, afirma que a experiência com a arte está sendo ''transformadora''. ''Descobri valores que eu não conhecia. Eu sofri com a dependência química e com a arte descobri que posso ter uma vida nova. Penso em usar o que aprendi aqui não como meio de vida, mas como hobby, terapia ocupacional e para presentear alguém'', explica o interno.
''Esse trabalho é benéfico para todos que participam. Podemos mostrar para as pessoas o nosso poder de desenvolvimento, o que podemos fazer. Isso nos ajuda a sair de cabeça erguida'', aponta outro interno, Claudemir, de 35 anos.

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