METROPOLITANA - Grafite inibe pichação
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quarta-feira, 30 de abril de 2008
André Amorim<br> Equipe da Folha 
O muro da casa do médico Tamotsu Noda, no bairro Jardim Botânico, em Curitiba, era um prato cheio para os pichadores. Grande, alto e cobrindo toda uma esquina, ele eventualmente inspirava os sprays da região, que maculavam a tinta branca com palavrões, caracteres estranhos e assinaturas diversas. O dono apagava os rabiscos, mas após poucos dias eles reapareciam. ''Ele não aguentava mais pintar, toda semana tinha uma nova pichação'', conta o filho de Tamotsu, César Noda. Em 2005, seu pai o chamou e pediu para que convocasse seus amigos que trabalhavam com grafite, pintura e outras expressões artísisticas visuais para cobrir o muro com desenhos. Talvez assim, a pichação desse uma trégua.
César convocou então seis amigos para um mutirão e transformou o muro numa tela de pintura coletiva. Durante o tempo em que ela permaneceu ali, as pichações cessaram completamente. O sucesso da estratégia foi tamanho que recentemente a família decidiu mudar a ilustração do muro. ''Minha mãe já estava enjoada daquele desenho'', conta César.
Para tanto foi chamado o artista plástico Roger Wodvymski, conhecido como ''Olho'', que fez no local uma pintura que lembra uma série de folhas. Desde que o novo trabalho foi concluído, nenhuma pichação foi registrada.
Pouco distante da casa da família Noda existe um outro local onde a arte tomou o lugar do vandalismo. Após anos convivendo com pichações no muro de casa, o casal Fábio Feitoza e Karen Bohn decidiu ceder o local para um amigo que trabalhava com grafite. O grafiteiro, Juliano Fitah, conhecido como ''Batoré'', não cobrou nada pelo serviço, pois considerou a localização do muro estratégica para a divulgação do seu trabalho. No local ele fez diversos desenhos com conotações políticas, como críticas à corrupção à guerra no Iraque e outros temas.
O trabalho deu resultado. ''Em cima (dos desenhos) eles não picham, respeitam'', garante Karen. Para impedir futuras pichações em um pequeno conjunto de casas que o casal aluga para estudantes, eles já convocaram Batoré para uma segunda empreitada.
O comércio também se vale dessa imunidade que o grafite proporciona. O empresário Ricardo Goulard, da 90 Graus Motos, conta que recorreu a essa estratégia por dois motivos: evitar a pichação e estreitar os laços com os muitos grafiteiros que existem na região. ''É uma política de boa vizinhança'', diz. O autor do trabalho que ostenta na fachada de sua oficina também é seu amigo Batoré. ''Depois que ele pintou, ninguém pichou mais'', conta.
No entanto, apesar do sucesso desse tipo de medida, o grafiteiro Wodvymski avalia que não há garantia sobre o que é feito na rua. ''Se alguém não gostar do meu trabalho vai lá e picha em cima mesmo'' diz. Para ele, o espaço urbano é disputado pelo grafite e pela pichação porque tem o poder de levar uma mensagem a um grande público.
A tese é reforçada pelo artista plástico Juan Parada, que no ano passado venceu um edital da Prefeitura de Curitiba para pintar um viaduto da cidade. ''Grafite pode inibir, mas não garante nada, pode até estimular uma richa interna'', avalia.
Quando estava perto de terminar a pintura do viaduto, Juan viu sua obra amanhecer com uma mancha azul feita por um vândalo. ''Nesse caso específico acho que foi dor de cotovelo'', diz. Segundo ele, a borda interna da estrutura foi toda pichada, mas o trabalho que ele realizou ali foi poupado pelos pichadores.
Para Batoré, que diferente de Wodvymski e Parada não possui uma formação acadêmica, o grafite é uma evolução da pichação. Segundo ele, existe um respeito mútuo entre os protagonistas dessas duas linguagens, mas as semelhanças param por aí. ''O pichador é um viciado em adrenalina, picha viaduto, prédio alto. O motivo dele é divulgar seu nome pra aumentar seu 'ibope' e aí ficar conhecido no seu meio'', conta.
O grafiteiro, por sua vez, está preocupado em passar uma mensagem e não dá muita bola para o 'ibope'. ''Acho que é uma forma de expressar a sua arte, mandar uma idéia. É 'massa' porque você atinge várias pessoas diferente'', explica.


