METROPOLITANA - Curitiba e região têm 15 mil catadores
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quarta-feira, 15 de agosto de 2007
Fábio Galão<br> Equipe da Folha 
Os catadores de materiais recicláveis se multiplicam pelas ruas da metrópole que se orgulha do pioneirismo na separação do lixo. Com carrinhos improvisados ou mais elaborados, eles percorrem grandes distâncias, debaixo de chuva ou sol, em dias frios ou de altas temperaturas. Tudo para conseguir os poucos reais que vão garantir o sustento da família.
Segundo o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), em Curitiba e região há aproximadamente 15 mil catadores. O MNCR estima que cerca de um terço desses trabalhadores moram na Vila das Torres e no Parolin, dois dos bairros mais pobres da capital paranaense.
Marilza Aparecida Lima, representante do movimento no Paraná, aponta que os carrinheiros rumam pouco a pouco para a profissionalização. Um dos caminhos é a congregação em associações. Na Região Metropolitana de Curitiba e no Litoral, já existem 32 grupos, apoiados por Organizações Não Governamentais (ONG)e outras entidades.
Outro caminho é o apoio do poder público. Em Curitiba, a prefeitura, após anos de reivindicações, deve implantar em breve um projeto em que serão oferecidos espaços e infra-estrutura para os carrinheiros realizarem o gerenciamento e a venda de materiais (veja box).
''Em muitas cidades do Paraná os catadores têm apoio da prefeitura, como em Londrina e Apucarana. Faltava isso em Curitiba. Com ajuda da prefeitura, o catador passa a ser mais respeitado pela sociedade. O carrinheiro deixa de ser encarado simplesmente como alguém que mexe com o lixo. Não adianta querer caminhar sozinho. A prefeitura não consegue organizar a coleta seletiva sem o catador e a gente não consegue tudo o que quer sem apoio'', diz Marilza.
O desejo de ser respeitado, de ser encarado como um profissional é forte entre os carrinheiros. ''As pessoas pensam que o carrinheiro está nessa profissão porque quer dinheiro para comprar bebida e drogas. Xingam, gritam, buzinam para a gente'', reclama Cristiane Rodrigues Mariano, 23 anos.
Sidnei José Brito Machado, 37 anos, carrinheiro desde os 13, acha que, além do preconceito de boa parte da sociedade, os ''maus catadores'' estragam a imagem da categoria. ''Sempre existem umas laranjas podres, uns carrinheiros que saem para roubar. Alguns catadores até conhecem o trabalho, mas saem com uma garrafa de pinga debaixo do braço, provocam confusão, entram na frente dos carros. Aí, muita gente fica com aquela visão: 'Carrinheiro é tudo vagabundo, não respeita ninguém''', critica Machado.
Ele relata que atualmente consegue entre R$ 550 e R$ 600 por mês catando materiais recicláveis. Com esse dinheiro, sustenta a esposa e dois filhos, e dá uma ajuda mensal para a filha do primeiro casamento. Machado atualmente está vinculado a uma associação de carrinheiros do Jardim Botânico, mantida por uma ONG.
''O Governo do Estado passou o recurso e a ong comprou 200 carrinhos, que são dos carrinheiros enquanto estiverem na associação. São carrinhos que custam uns R$ 300 cada, dos melhores, e mais leves'', diz Marilza Lima. Sidnei Machado conta que nunca teve dinheiro para comprar um bom carrinho.
''Antes, eu trabalhava para um ferro-velho, e o carrinho era do dono do depósito. Cheguei a ter um carrinho próprio na época do (Rafael) Greca (prefeito de Curitiba entre 1993 e 96), quando a prefeitura tinha um projeto de ceder carrinhos. Esse programa não existe mais, mas ainda dá para encontrar uns carrinhos daquela época por aí (risos). O meu começou a estragar e passei para o dono do depósito'', explica.
Marilza Lima afirma que hoje existem outros projetos de associações vinculadas a entidades que compram os carrinhos e cedem para os catadores. Mas a maioria dos carrinheiros se vira por conta própria. ''Há alguns anos, surgiu na Câmara Municipal de Curitiba um projeto para padronizar os carrinhos, mas não foi adiante. Não tem como manter um padrão. A primeira ferramenta de trabalho do catador é o carrinho. Aí, tem de tudo. Muitos carrinheiros conseguem só o rodado e fazem o resto de madeira. Alguns mandam fazer em serralherias, ou fazem por conta própria, com madeira ou ferro. Já vi até carrinho feito com peças de geladeira. Como você vai padronizar?''.
No improviso ou com apoio, a profissão de carrinheiro continua sendo uma alternativa para quem teve e tem poucas oportunidades na vida, como Cristiane Mariano. ''Há um ano e pouco sou carrinheira. Virei catadora porque qualquer serviço que você procura pede experiência e estudo, e eu estudei só até a 3 série. Tenho dois filhos para sustentar, sou mãe solteira. Vim de Almirante Tamandaré e hoje trabalho separando lixo. Ajudo meu pai, que também é carrinheiro. Não saio mais para a rua porque não sei andar sozinha pelo Centro de Curitiba. Espero um dia voltar a catar papel. Dá mais dinheiro do que separar o lixo''.


