Os saudosistas têm o discurso na ponta da língua: ''As cidades cresceram, os campinhos de pelada acabaram, hoje em dia é só cancha alugada, escolinha de futebol, quadra de condomínio...''. Então é verdade? Os campinhos para a famosa pelada ou rachão não existem mais nas grandes cidades?
A resposta é não. Uma volta pelos bairros de Curitiba permite constatar que ainda há muitos recantos peladeiros na capital paranaense. Embora a profissionalização dos clubes de futebol tenha apagado o espírito romântico dos campinhos de bairro, onde os craques eram revelados, os espaços para pelada, sejam de grama, terra ou areia, continuam fiéis ao princípio de amizade e diversão.
''Você chega ao campinho e faz amigos. Às vezes, você está lá e aparecem uns caras com uma bola. Aí, conversa: 'Vamos fazer um racha?'. E surgem as amizades'', diz Nílson de Oliveira, funcionário de uma empresa de serviços de manutenção. Ele joga todo fim de semana na Praça dos Menonitas, no bairro Boqueirão.
Como muitas pessoas mantêm o hábito das peladas no final de semana, é inevitável que times sejam formados nos bairros. Nos campos do Parque Peladeiro, no Cajuru, já surgiram várias equipes para a disputa de pequenos campeonatos locais. ''É tudo peladeiro de fim de semana. No último campeonato, eram oito times'', diz o metalúrgico Sidnei Timóteo dos Santos, jogador do Real São Domingos.
''A maioria aqui é amigo. Um chama o outro, ouve falar. Às vezes aparece alguém perguntando: 'Posso jogar?'. E o time é formado'', diz o porteiro Israel de Oliveira Prestes, ''técnico'' do Real. O time ainda não atingiu um estágio apropriado para a disputa da Suburbana, o badalado campeonato de futebol amador da capital. Mas quem sabe um dia.
Independente do ''grau de importância'' que atribuem ao rachão, os peladeiros entrevistados pela FOLHA são unânimes nas críticas às canchas alugadas. ''Não tem nem como comparar. Para jogar na cancha com grama sintética, é pelo menos R$ 70 a hora'', diz o servente de pedreiro Adauto Fernandes, que todo fim de semana se desloca do Parolin, onde mora, até a Praça Afonso Botelho, no Água Verde, para jogar no campo de areia.
''O campinho de pelada é mais família. É aberto, você joga com os amigos, com a molecada, é melhor para brincar'', afirma o autônomo Cláudio Omir, que joga nos campinhos da Praça Santa Rita de Cássia, na Vila Hauer.
Os peladeiros acham que Curitiba poderia ter ainda mais opções. ''No Parolin mesmo não tem um bom campo de pelada. A gente tem que vir aqui (até a Praça Afonso Botelho) para jogar'', explica Adauto Fernandes. ''Curitiba deveria ter mais campinhos. Haveria mais oportunidades para encontrar talentos'', complementa Cláudio Omir.
Nílson de Oliveira discorda e diz que na capital paranaense ainda há muitas áreas propícias para o rachão. ''Existem até uns campinhos improvisados, sem trave. É só colocar dois paus como trave e o pau come'', afirma. Ainda assim, ele também acredita que o futebol profissional está perdendo o ''espírito de pelada''. ''Os caras não pensam mais nos campinhos de pelada para revelar jogadores. Hoje, se tem dinheiro, o garoto treina no time. Se não tem dinheiro, não treina. Os caras só pensam nisso. Tem muita gente boa jogando nos campinhos de pelada e ninguém vai atrás''.

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