METROPOLITANA - Campanha conserva florestas com araucária
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 06 de agosto de 2007
Fábio Galão<br> Equipe da Folha 
A árvore símbolo do Paraná pede socorro. Segundo a ong Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), dos mais de 8 milhões de hectares de áreas de floresta com araucária que existiam originalmente no Estado, restavam no início desta década menos de 60 mil hectares (0,8%) em bom estado de conservação.
Preocupada com essa situação, a SPVS criou no Paraná a Campanha de Adoção de Florestas com Araucária. A primeira área adotada foi a Mata do Uru, uma propriedade de aproximadamente 130 hectares localizada na Lapa, Região Metropolitana de Curitiba. Há quatro anos, a área é preservada com recursos do Grupo Positivo, de Curitiba.
Giem Guimarães, diretor geral da gráfica Posigraf (empresa do Grupo Positivo) e também conselheiro da SPVS, explica que na campanha uma empresa privada paga uma quantia mensal para que um proprietário de área de interesse preserve o local, com vigilância, cercamento e sinalização. A ong orienta o trabalho.
''O que restou das florestas com araucária no Paraná foram pequenas áreas, que estão nas mãos de pequenos proprietários. Eles, por muitas razões, especialmente econômicas, se vêem obrigados a se livrar dessas áreas. Não recebem qualquer incentivo para preservar esses locais. Daí surgiu a idéia da campanha'', explica Guimarães. ''Existe a condição de que o proprietário deve transformar a área em RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) ou se comprometer a não explorar economicamente o local''.
A família Campanholo é proprietária da área da Mata do Uru. ''Meu pai adquiriu a área em 1953. Ele já comprou com a intenção de conservar a mata. Disse que seria um tributo dele à natureza. Por ser madeireiro, ele sabia a extensão dos resultados da atividade dele'', diz Alba Regina Campanholo. ''Mesmo sem o apoio do Grupo Positivo, estaríamos fazendo a preservação, mas provavelmente sem a mesma qualidade''.
Segundo Pablo Hoffmann, engenheiro florestal da SPVS e responsável técnico pela RPPN Uru, a área conta com grande biodiversidade: além das araucárias, a propriedade tem exemplares de canela, imbuia e outras espécies vegetais. Além disso, foi registrada no local a presença de várias espécies animais, como urus, gralhas, cotias, porcos do mato, jaguatiricas.
O engenheiro explica que o Grupo Positivo planeja montar um esquema de visitas regulares à Mata do Uru. ''A área recebe atualmente visitas esporádicas. Há um plano básico para visitação, mas não é sistemático ainda. Estamos planejando'', diz Hoffmann. A biodiversidade da área surpreende até mesmo quem trabalha no local diariamente. ''No dia a dia, dá para perceber o aparecimento de mais e mais espécies'', relata Anselmo Lourenço Coelho, guarda da mata.
Sandro Coneglian, coordenador da campanha, aponta que outras três propriedades foram adotadas, em São João do Triunfo, Prudentópolis e Fernandes Pinheiro. Por enquanto, apenas a Mata do Uru foi convertida em RPPN.
O coordenador aponta que a SPVS tem aproximadamente mais 60 propriedades cadastradas para adoção. O índice de adesão à campanha, portanto, é baixo. ''O que acontece é que muitas indústrias e empresas ficam satisfeitas em ter um sistema de gestão ambiental, o que é bacana, mas não é suficiente para a preservação da biodiversidade. Mantendo uma floresta em pé, você está preservando toda uma variedade de espécies, um ecossistema. Falta para a pessoa o conceito de que ações voltadas para o meio ambiente não são necessariamente ações voltadas para a biodiversidade'', explica Coneglian.
Giem Guimarães também considera que a mentalidade de muitas empresas não ajuda. ''O empresariado paranaense não tem essa cultura de preservação. Pelo contrário, existe uma cultura de madeireiros, agricultores, lobistas'', critica.
Na Mata do Uru, Alba Campanholo leva adiante o projeto do pai e do irmão, que se dedicaram à preservação do local. ''Essa consciência é uma coisa que meu pai repassou para os filhos, que também passaram adiante. Todos na família comungam desse pensamento, como o 'nono' queria''.
Conheça as áreas já adotadas
RPPN URU
A área possui 130 hectares, está localizada no município da Lapa e há quatro anos é mantida com recursos doados pelo Grupo Positivo.
FAZENDA CANUDOS
Propriedade de 486 hectares situada no município de São João do Triunfo (a 154 km de Curitiba), há dois anos é mantida pela Rigesa, empresa de atuação nacional no mercado de papel e embalagens.
SÍTIO DAS ARAUCÁIAS
Tem 76 hectares e está localizada no município de Fernandes Pinheiro (a 164 km de Curitiba). Há dois anos, é mantida graças à adoção de uma pessoa física.
SÍTIO SÃO JOSÉ
Há dois anos, a propriedade de 40 hectares, localizada em Prudentópolis (a 207 km de Curitiba), é mantida com recursos da Sun Chemical, multinacional que fabrica pigmentos e tintas para impressão.
Fonte: SPVS


