Caipira costuma ser, principalmente em Curitiba, uma alcunha que normalmente as pessoas não gostam de ter, especialmente aqueles que se consideram cultos. Para muitos, caipira significa ser burro, ignorante, inocente, entre outros adjetivos pouco nobres. Para Ivan Graciano, filho da famosa dupla Nhô Belarmino e Nhá Gabriela, ser caipira passa longe dessa caracterização.
''Acho que o caipira mora em cada um de nós. Mesmo morando na Capital somos caipiras, somos mais até do que muita gente do interior. Mas é que o curitibano não gosta de admitir que é caipira porque acha feio. Só que ser caipira tem aquela coisa de valorizar os rios, as florestas, os animais, a natureza. Essa coisa toda inspira aquela poesia dos caipiras'', define Ivan Graciano, que, aos 62 anos, não se cansa de relembrar a história dos pais, caipiras assumidos que nunca viveram no campo.
Salvador Graciano, o Nhô Belarmino, nasceu em Rio Branco do Sul, na Região Metropolitana de Curitiba, no dia 4 de novembro de 1920. Desde pequeno era interessado pela música, por entreter os colegas e a família. ''Desde os 8 anos ele tocava violão e acompanhava os moços para fazer serenata. Na época não tinha nada aqui e o circo montava aqui perto. E com 12 anos ele já ganhava dinheiro no parque dos circos'', recorda o filho Ivan, referindo-se ao circo que era montado no Parque Nilton Freire, o antigo Parque Castelo Branco.
Aos 12 anos, Salvador foi convidado para se apresentar pelo circo, estrada afora. Os pais, claro, não concordaram. O menino então montou um palco improvisado próximo de onde hoje é a Rua José de Alencar e chamou os vizinhos do que atualmente é o Alto da Rua XV para conferir o show, que já tinha como personagem central a figura de Nhô Belarmino, consolidada dois anos depois, quando passou a se apresentar com Nhá Quitéria, sua irmã, Pascoalina. ''Ele sempre valorizou o homem do campo e se vestiu assim para enaltecer esse povo simples'', destaca Ivan, pai de três filhos e também músico multiinstrumentalista, que costuma se apresentar com o grupo Viola Quebrada e atualmente mora no Alto da Glória.
Júlia Alves Graciano, a Nhá Gabriela, nasceu em Porto de Cima, no litoral paranaense, no dia 28 de outubro de 1923. O encontro com quem seria seu futuro parceiro, marido e companheiro para o resto da vida aconteceu em 1937. ''Minha mãe trabalhava em uma fábrica de acolchoados e a amiga dela saiu mais cedo, porque elas iam ensaiar na Rádio Clube Paranaense, onde meu pai já trabalhava. Elas cantaram e ele pegou o endereço delas. Uma semana depois, ele já estava rodeando a casa dela (Júlia)'', diz, com entusiasmo, Ivan.
Como Nhá Quitéria tinha deixado de existir com o casamento de sua irmã, Nhô Belarmino encontrou em sua amada a parceira ideal para substituí-la. Ali, então, nascia a famosa dupla Nhô Belarmino e Nhá Gabriela. Ou simplesmente Belarmino e Gabriela, que passou a agradar o público, com sua caracterização de gente simples e divertida, ou caipira. ''Quando eles pintavam os dentes, a reação do público era diferente, as pessoas se identificavam com eles. Ele era um excelente músico, eles cantavam e agradavam. O que mais arrancava risadas era aquele humor sadio, sem sexo ou crítica política. Eram coisas do dia-a-dia, simples'', contrapõe Ivan, comparando com o humor nos dias de hoje.
Sucesso nacional
O sucesso nacional veio com a gravação da canção mais conhecida da dupla, Mocinhas da Cidade, em 1959. ''Estava junto quando meu pai compôs Baile na Fazenda e ele disse que ia gravar a música na RCA, no Rio, porque só dava pra gravar lá na época. A música era simples e ele gravou rápido. O dono do estúdio disse que estava sobrando tempo e dava para gravar outra. Minha mãe queria gravar Mocinhas da Cidade mas ele disse que não, porque era uma música muito simples, ele queria gravar Paranaguá. Mas como Mocinhas da Cidade era animadinha e curtinha, ele acabou sendo convencido pela minha mãe'', lembra Ivan.
A partir daí, a dupla estourou pelo Paraná e outras regiões do Brasil, como Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro. Mocinhas da Cidade foi gravada por vários intépretes, inclusive pelo cantor luso-brasileiro Roberto Leal. Salvador morreu em 1984, Júlia, em 1996, e a criação da dupla talvez seja uma das únicas unanimidades quando se fala em herança cultural no Estado, que mantém tradições bem distintas em cada região.
''A herança que deixaram não foi em palavras. Foi em atitude. Em atitude profissional de respeito ao público, à arte. Não importa onde era o show, se era pequeno ou longe, eles tocavam da mesma forma. Eram marido e mulher e tiveram 40 anos juntos. O povo via os dois de maneira familiar, religiosa e honrada. Foram um exemplo de vida, criaram os filhos com uma violinha debaixo do braço e nunca usaram uma só palavra de baixo calão'', emociona-se Ivan.
Ivan também alerta sobre a herança cultural no Estado. ''O esquecimento faz parte da juventude, mas não podemos deixar os órgãos e jornais se esquecerem disso. O paranaense é assim, não liga muito para sua cultura. O gaúcho luta com fogo e ferro por suas coisas, o nordestino também. No Paraná, pela mistura de povos, a gente não briga, não reclama. Temos que ter a responsabilidade de manter os jovens cientes dos valores que estão morrendo. Nosso Carnaval (de Curitiba), por exemplo, não dá para participar. É muita briga, rivalidade, mais gente de olho na verba do que na festa do povo'', critica.

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