Para muita gente ela é sinônimo de sacrifício, longos períodos de aulas de reforço e notas vermelhas no boletim escolar. Mas, para 34 estudantes de Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), ela é uma espécie de passaporte para o futuro. Alunos e alunas, com idades entre 10 e 15 anos, acabam de receber certificados de menção honrosa pelo bom desempenho obtido durante a 2 Olimpíada Brasileira de Matemática, realizada em 2006. Na última segunda-feira, uma cerimônia no anfiteatro do Paço Municipal homenageou os alunos, seus professores e familiares.
Diogo da Silva, de 15 anos, estava lá. Ele é aluno do segundo ano do Ensino Médio da escola Júlio Szymanski. Criado em Araucária, mudou-se com a família para Curitiba ano passado, mas continuou os estudos na cidade vizinha. Para não perder aulas e participar da olimpíada passou a dar aulas particulares a alunos de primeira a quarta série para pagar as passagens de ônibus. ''Eu sempre tirei notas boas em matemática. Até nas horas de folga gosto de resolver problemas e equações'', garante ele, que planeja ser médico.
Realizada desde 2005 pelos ministérios da Educação, da Ciência e Tecnologia e Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa), a competição é dirigida aos alunos de 5 a 8 séries do ensino fundamental e do ensino médio das escolas públicas municipais, estaduais e federais de todo o país. O objetivo é estimular o estudo da matemática entre alunos das instituições públicas, contribuir para a melhoria da qualidade da educação básica, identificar jovens talentos e incentivar a entrada destes alunos nas áreas científicas e tecnológicas. Na avaliação do governo federal, é também um modo de promover a inclusão social por meio da difusão do conhecimento.
Além dos certificados, há distribuição de bolsas de estudo e medalhas. Edipo André dos Santos, 15 anos, está sendo homenageado pela segunda vez. Na primeira, ganhou um curso de iniciação científica no Centro Politécnico da Universidade Federal do Paraná (UFPR). No ano passado, ele assistiu a aulas durante os sábados. ''O curso foi ótimo, aprendi muito. Lá, pude aperfeiçoar fórmulas que havia aprendido durante as aulas'', conta ele, que pretende cursar faculdade de engenharia mecânica. ''Também sou bom em física'', assegura. Filho de metalúrgico e professora primária, Yago não vê diferença entre o ensino público e o oferecido pela rede particular, que frequentou durante poucos anos. ''Depende muito do aluno'', enfatiza.
Segundo a coordenadora de matemática da secretaria de Educação de Araucária, Luciane Telles, a iniciativa é importante também porque leva as escolas a avaliar o ensino da matéria, verificando o que precisa ser ajustado. Além disso, a olimpíada contribui para desmitificar a matéria, considerada ''difícil'' por muitos alunos. Enquanto se preparam para os testes - realizados em duas fases - são trabalhados em sala de aula aspectos da matemática significativa. ''O aluno é estimulado a aplicar no dia-a-dia os conhecimentos matemáticos aprendidos na escola. A meta é trabalhar as aituações-problema'', explica Luciane.
''Eu passei a ensinar o meu pai em casa, coisas como regra de três, por exemplo, porque ele não teve oportunidade de estudar'', conta Natan Pedroso, 13 anos, aluno da sétima série. Ele, que diz adorar computadores, pretende ser biólogo marinho, e garante que é possível aprender a matéria que, para a maioria, é ''um bicho de sete cabeças''. ''Eu mesmo só me interessei por matemática na quarta série. Não é difícil, mas depende muito de quem ensina. O aluno também precisa praticar bastane'', recomenda. Para a coordenadora Luciane Telles, alunos como Natan acabam incentivando toda a escola a participar da atividade. ''Não é só para quem sempre foi bom nessa matéria. É uma oportunidade para todos''.
E para quem ensina, observar o desenvolvimento do aluno é gratificante. Principalmente, quando o estudante consegue se destacar. ''É um estímulo para o professor. Ele vê que o aluno não está estudando só para a prova, mas para concorrer na olimpíada. A proximidade do aluno e do professor com a matemática está sendo muito significativa'', ressalta a secratária de Educação de Araucária, Ivana Chemello.
De acordo com a pedagoga Laura Lopes Dias, na rede pública municipal, os professores já estão ensinando matemática de um modo ''mais próximo do dia-a-dia''.''Desde as séries iniciais, há um trabalho diferenciado, que procura fazer com que o aluna compreenda o significado da matemática na vida diária. Não é mais só aquela coisa do arme e efetue'', afirma.
Além de compartilhar com os colegas e os professores a sensação de vitória por terem superado obstáculos, os alunos premiados também deixam os pais ainda mais orgulhosos. ''Eu sempre quis estudar história, mas não pude. Meus pais eram lavradores. Mas ele vai fazer faculdade. Sempre foi bom aluno e estuda sem a gente precisar mandar. Vale a pena investir nele'', comenta, orgulhoso, o vigilante Rui Godoy, referindo-se ao filho Yago Henrik, 15 anos, que, além de garantir ter muita ''afinidade'' com matemática, adora física e química. ''Vou ser engenheiro agrônomo e mudar para o interior'', diz ele. O primeiro passo já foi dado.

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