Jéssica (nome fictício), 14 anos de idade, é moradora do Jardim das Oliveiras, em Almirante Tamandaré. Há cinco anos ela frequenta as atividades do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti) no município.
''Eu e meus irmãos ajudávamos catando papel. O dinheiro era para ajudar a comprar comida. Meu pai dizia para a gente sair às seis horas da manhã. Eu andava a cidade inteira e voltava ao meio-dia. À tarde, ia para a escola. Era cansativo, mas tinha que trabalhar. Não dava para deixar minha mãe e meus irmãos com fome'', diz a adolescente.
Os ganhos do pai, pedreiro, eram insuficientes para sustentar a família. Há três anos, um irmão de Jéssica, envolvido com o tráfico de drogas, foi assassinado.
São histórias de pobreza como essa que contribuem para o panorama do trabalho infantil na Região Metropolitana de Curitiba. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apresentados pelo Governo do Paraná durante o Seminário Estadual sobre Erradicação do Trabalho Infantil, evento realizado no dia 12 de junho, em 2005 havia 68.077 pessoas com idade entre 10 e 17 anos trabalhando na RMC. Quatro anos antes, eram 64.126.
De acordo com números da mesma pesquisa, no Paraná a quantia de pessoas na faixa etária mencionada trabalhando diminuiu de 333.758 em 2001 para 309.445 em 2005. Entretanto, a partir desses dados não é possível apontar com precisão em quanto reduziu ou aumentou a exploração de mão-de-obra infantil no Estado e na RMC. Segundo o Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social, que analisou os dados da PNAD, uma parcela (não especificada) dos números diz respeito a jovens entre 14 e 17 anos ocupados legalmente - como aprendizes ou trabalhando com carteira assinada, por exemplo.
Em todo caso, é fato que o trabalho infantil é rotina em milhares de vidas em Curitiba e região. ''Numa análise inicial, a RMC, comparando com outras regiões metropolitanas, foi a que mais cresceu em fluxo populacional. Muitas pessoas do interior e de outros Estados vêm para Curitiba e região em busca de novas possibilidades. As famílias têm necessidades, não encontram condições e uma das saídas é o subemprego dos adolescentes e das crianças para complementação da renda. Na sociedade que almejamos, esses jovens deveriam estar estudando ou em ações sócio-educativas'', diz Elza Maria Campos, coordenadora do Fórum Estadual de Erradicação do Trabalho Infantil e Regularização do Trabalho do Adolescente no Paraná (Feti).
''Em outras regiões, no interior, as atividades na agricultura são a principal ocupação do trabalho infantil. Nos grandes centros urbanos, os problemas mais comuns são outros: exploração sexual comercial, tráfico de drogas, trabalho com lixo, venda de produtos nos sinaleiros, serviço de engraxate e trabalho doméstico'', explica Lilian Romão, coordenadora de políticas institucionais da Central de Notícias dos Direitos da Infância e Adolescência (Ciranda).
No Peti em Almirante Tamandaré, aproximadamente 80 crianças e adolescentes participam de diversas atividades no contraturno da escola: capoeira, teatro, educação física, artesanato. Segundo Liszete Fátima Walczak, coordenadora do Peti no município, as famílias atendidas recebem recursos do programa e do Bolsa Família. Entretanto, é difícil combater a mentalidade do trabalho precoce, comum nos bolsões de pobreza.
''Um menino que atendemos recebe R$ 40 por mês do Peti. Mas é difícil mantê-lo aqui porque ele diz que ganha mais catando papel. Os meninos, principalmente os mais velhos, pensam muito em ajudar no sustento da família. Eles não percebem que estão perdendo etapas da infância e da adolescência'', afirma Liszete.

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