O melhor retrato de uma cidade é o seu cotidiano. Em busca dessa imagem, a Folha acompanhou Curitiba por 24 horas seguidas. A data escolhida foi a última sexta-feira, 23 de março, sete dias antes de a capital paranaense completar 308 anos.
Quatro equipes de reportagem do jornal –compostas de repórter, repórter-fotográfico e motorista– percorreram a cidade entre a 0 hora e as 23h59. Nesses 1.440 minutos, 86.400 segundos, somaram quase mil quilômetros rodados, numa cidade que não pára de crescer e já é a sétima maior do País.
Viram uma metrópole em pulsação. Ao mesmo tempo rica e socialmente injusta, sofisticada e batalhadora. Testemunharam cenas de descontração, alegria, violência, desespero, deserespeito ao cidadão, crescimento urbano desordenado, boas soluções arquitetônicas e urbanísticas, esperança.
Esse olhar atento sobre a sexta-feira de alguns dos 1.586.898 curitibanos foi traduzido em 24 cenas, selecionadas e colhidas hora a hora, desde a quietude da madrugada até o rush estressante de ruas que já não comportam uma das maiores frotas do País. Maior cidade do Sul, Curitiba registra raros momentos de calmaria: é uma cidade que dorme cada vez mais tarde e acorda cada vez mais cedo.









A madrugada curitibana é anônima, constatou a equipe composta pela repórter Katia Michelle, 25 anos; o repórter-fotográfico Kraw Penas, 36; e o motorista Cleverson Gonçalves dos Santos, 27. Eles percorreram espaços antagônicos –de inusitados a previsíveis– da 0 hora às 6 horas. Visíveis personagens. Alguns estereótipos, outros nem tanto, mas sempre anônimos. Alguns profissionais, outros nem tanto, mas sempre desconhecidos. Não há memória na madrugada, apenas histórias. E delas, os personagens se fartam. E nós também, nas seis horas vigiando Curitiba do lado avesso, quando até a Rua 24 horas repousa.A equipe que percorreu a cidade durante a manhã (a repórter Ellen Taborda, 27 anos; o repórter-fotográfico José Suassuna, 38; e o motorista Gerson Batista Pinto, 31) não encontrou uma, mas várias Curitibas. Uma cidade formada por inúmeros fragmentos de cidades, com todos os seus contrastes e problemas sociais. Contrastes sentidos quando o carro da Folha chegou à Favela do Xapinhal, com suas casas de madeira mal acabadas e seus habitantes humildes, mas com esperança. Experiência que lembra que Curitiba não está restrita aos shopping-centers.A equipe formada pelo repórter Dimitri do Valle, 27 anos; o repórter-fotográfico Albari Rosa, 35; e o motorista Paulo Sérgio da Luz, 31; percorreu cerca de 250 quilômetros de ruas e avenidas de Curitiba. Os profissionais registraram cenas da capital paranaense no horário em que ela atinge o auge de seu cotidiano: das 12 às 18 horas. O trânsito infernal, o calor de 32 graus e muita sorte para produzir as imagens e textos desta reportagem acompanharam a equipe na sua incursão a uma cidade que impressiona pela beleza, contrastes sociais e uma imensa vontade de acertar. Policiais prendendo traficantes, crianças vendendo flores e homens e mulheres vendendo sexo nas esquinas. Se não representam agressões aos mais sensíveis, ao menos essas cenas mostram que a cidade vai além dos parques e monumentos que a tornaram famosa. Ainda que os atletas do Barigüi falando ao celular desenhem outro quadro, Curitiba assumiu as virtudes e defeitos de uma metrópole. Essas foram as impressões do repórter Julio Cesar Lima, 36 anos; o repórter-fotográfico Gilson Abreu, 31; e o motorista Marcos Rosilei Piras, 34. Eles circularam pela cidade entre as 18 e as 24 horas.

















CENTRO CÍVICO Eles são conhecidos por nightbikers. O advogado Lindomar Machado, 60 anos, e o empresário Alessandro Schwonka, 28, fazem parte de um grupo que é categórico ao escolher o horário da pedalada: a madrugada. O horário também é o preferido dos freqüentadores da pista de skate do Gaúcho, nas Mercês. Para os esportistas notívagos, noite e adrenalina são irmãs












RUA 24 HORAS A Rua 24 Horas já teve seus tempos de glória. Agora, meio decadente, já não oferece tantas opções. Mesas vazias, garçons ociosos e poucos freqüentadores resistentes à hora que, de madrugada, passa lenta na rua que nunca pára. Boa (e quase única) opção para quem tem fome (e dinheiro) em horários inóspitos




PINHEIRINHO O sol ainda não deu seus primeiros sinais e o amplo estacionamento da Ceasa já está lotado. Alguns comerciantes compram a vaga por até R$ 15,00 por dia e podem chegar mais tarde. Os que não podem pagar pelo espaço têm que chegar com quase dez horas de antecedência, para garantir lugar. Se a gente se atrasa, não consegue vender, diz um feirante


RUA XV de NOVEMBRO O dia começa a amanhecer e a tranqüilidade quase torna irrreconhecível um dos cartões postais mais agitados de Curitiba. A Rua XV de Novembro, no centro da cidade, é palco de poucos atores. Como alguns estudantes e trabalhadores que passam pelo calçadão deserto antes de mais um dia de trabalho ou de estudo


HOSPITAL DE CLÍNICAS Para quem tenta uma consulta no maior hospital público do Paraná, o Hospital de Clínicas, o dia começa com fila. Pacientes chegam a passar 19 horas na espera. E a consulta, se eles conseguirem, é só para daqui a três meses. Se o caso fosse grave, eu iria direto para o cemitério, diz o aposentado Airton Rasmussen, 54 anos


BAIRRO PORTÃO Crianças jogam xadrez durante aula, mas já começam a pensar no futuro. Na Escola Municipal Papa João XXIII, pequenos curitibanos já decidiram que serão pediatras, jogadores de vôlei, engenheiros mecânicos e até cientistas. Quero descobrir a cura da Aids, promete Diego Verchai, 13 anos


VILA SÃO JORGE Uma garrafa por um repolho. Um pneu careca por tomates. A troca insólita é feita por moradores da Vila São Jorge, no programa Câmbio Verde, mantido pela prefeitura. O lixo reciclável acaba se transformando em alimento para famílias como a de Izabela Martins, 14 anos, que não estuda e ajuda a recolher material para alimentar a família, de sete pessoas


FAVELA XAPINHAL Meu filho foi assassinado aqui. Foi uma briga por causa de namorada, conta Jordina de Souza, 50 anos, moradora da Favela do Xapinhal. Histórias de violência e de esperança são ouvidas nas ruas de uma das maiores áreas invadidas de Curitiba. A maioria das 2,3 mil famílias veio do Interior do Estado em busca de melhor sorte


MERCADO MUNICIPAL Há 42 anos, a feirante Vilma Alisson, 62, vive entre bananas, maçãs e tomates. A história dela se confunde com a do próprio Mercado Municipal, onde permanece 12 horas por dia. Aqui é a minha segunda casa. Pelos corredores e bancas do mercado, passam cerca de 3 mil pessoas por dia


PROCON O marceneiro Valter Santana Dias, 69 anos, se assustou ao ver uma conta telefônica de R$ 300,00. Garante que não gastou nem um terço desse valor. Assim como ele, outras 6,5 mil pessoas acionaram o Procon no ano passado em Curitiba para exigir seus direitos de consumidor


AVENIDA VISCONDE DE GUARAPUAVA Curitiba emite os primeiros sinais de que vai se recolher. Parte de seus habitantes usa apenas uma avenida para garantir o descanso merecido. Os veículos criam uma cena só vista em grandes centros urbanos: o asfalto desaparece sob o congestionamento que aparenta não ter fim


PRAÇA RUI BARBOSA As portas do ônibus se abrem. Corpos se lançam para fora. A estação-tubo, símbolo da eficiência do transporte coletivo curitibano, vira um centro nervoso. Passos apressados para todos os lados. Em seguida, silêncio. Daqui a cinco minutos, a calmaria será quebrada de novo. Chega o próximo biarticulado


PARQUE BARIGÜI O engenheiro Cláudio Pessotti, 51 anos, adotou o Parque Barigüi para fazer exercícios no final de tarde. Nascido em Piracicaba (SP), Pessotti gosta da área verde à disposição do curitibano. Curitiba se destaca por essa preocupação. O Barigüi reúne, além de atletas, casais de namorados, solitários e grupos que curtem um happy hour à beira do lago


PRAÇA DA UCRÂNIA Começa uma das mais tradicionais feiras noturnas da Capital. Localizada na Praça da Ucrânia, no bairro Bigorrilho, dura até as 23 horas. Maria Makiami, 65 anos, serve pelo menos 30 tampurás, que ela mesma produz, por noite. Extensas filas se formam em frente à sua barraca, especializada em comida japonesa


BOQUEIRÃO No campinho de areia, um sonho ilumina os meninos: jogar como Pelé, Zico ou Romário. A surrada bola de couro cumpre um nobre papel nessa jornada. Na medida em que continua a se desgastar no terreno áspero, a pelota é o instrumento que os atletas mirins precisam para ficar perto, em espírito, dos semideuses do futebol


SANTA QUITÉRIA Esses anjos da guarda não têm asas nem vestem túnicas brancas. São de carne e osso, mas carregam uma responsabilidade igual à dos seres divinos: zelar pela vida. O pedreiro Adécio Conde, 47 anos, que o diga. Após sofrer uma queda, foi atendido com rapidez pelo Siate. Pode afirmar que nasceu de novo


RUA CARLOS DE CARVALHO Lixeiros entram em cena para percorrer, toda noite, 45 quilômetros e recolher o lixo da área central. Francisco Coito, 25 anos, forma dupla com Gilson Santos, 24. O trabalho é semelhante a uma competição: reúne corrida, levantamento de peso e salto com obstáculos


VILA LINDÓIA Apesar da violência do bairro, o Bar do Zezinho, ainda reúne pessoas que cresceram na região. Nos finais de semana, a costela assada e o truco fazem sucesso entre eles. José Aparício Inácio, o Zezinho, 47 anos, garante que o bar serve a cerveja mais gelada do bairro


CENTRO Na Rua Visconde do Rio Branco, o guardador de carros José Barbosa, 32 anos, chega a ganhar até R$ 20,00 por noite. As gorjetas variam, mas ele prefere o trabalho ao descanso noturno. Essa é a sua única fonte de renda. Às vezes cansa um pouco, mas tem que ser assim, resigna-se

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