É muito bom ficar ao lado desse senhor. É bom vê-lo falar, gesticular, ler seus escritos, contar as novidades, tudo entrecortado com tiradas bem humoradas e um sorriso grande e sincero. A serenidade já o alcançou. Veio junto com a sapiência. Dá vontade de ficar horas e horas ouvindo o que ele tem a dizer. É que suas frases são fortes, trazem as palavras exatas mesmo que algumas sejam pronunciadas com certa dificuldade. Acima de tudo o que mais chama a atenção nesse senhor de 85 anos é a humildade. Essa talvez seja a principal característica do poeta japonês Yoshinobu Seko que há mais de 40 anos escolheu Londrina para morar.
Para quem não sabe, Yoshinobu Seko é uma das atuais referências da poesia japonesa no Brasil e no exterior. São vários os prêmios que coleciona. Do centenário concurso promovido anualmente pela Casa Imperial do Japão, foi agraciado por duas vezes - em 71 e 74. Suas predileções recaem sobre o Tanka - com versos cuja métrica obedece à formatação 5-7-5-7-7 - e principalmente o Senryu - que se fixa à formatação do Hai Kai, ou seja, 7-5-7.
O Tanka fala das impressões que o poeta tem sobre a natureza. O Senryu enfoca o ser humano, seus sentimentos e sensações de maneira crítica, direta e até satírica. Acima de tudo, o poeta diz que o que escreve vem das suas observações. Mas, segundo ele, é preciso deixar que o coração escolha as palavras certas e, assim, a poesia se mostrar tal como deve ser: fluída, cheia de comoção. Yoshinobu é um mestre, saibam. Literalmente um mestre.
Tanto que a cada primeiro e segundo sábado do mês reúne em sua casa um grupo de japoneses - homens e mulheres - interessados em aprender a técnica do Senryu. No último sábado, é a vez dos alunos aprenderem as sutilezas do tanka. Na última segunda-feira, o poeta leva seus conhecimentos a um grupo de mulheres, na igreja budista que frequenta. ‘‘Eles me tratam como professor, mas prefiro ser chamado de amigo da poesia. Não são meus alunos. São meus companheiros de poesia’’, reflete o poeta.
Yoshinobu Seko, vejam só, fez apenas o curso primário no Japão. Confessa: não gostava de estudar. Quando a família decidiu tentar a vida no Brasil, precisou ajudar na lavoura. Eram tempos rudes. Muito trabalho. Uma nova vida num país desconhecido. E mesmo assim a poesia veio ao seu encontro. Aos 18 anos. Começou a escrever, como explica, para aliviar seu coração.
Com o coração aliviado, Yoshinobu foi se adaptando ao Brasil. Não só se adaptando como também tomando amor pela terra que o acolheu. Seu patriotismo chega a ser comovente. ‘‘Quem me criou foi o Brasil, eu só nasci no Japão. A gente aqui é boa, faz amizade fácil, além da terra boa. Eu costumo falar assim: só meu nome é japonês, porque meu coração é todo, todo brasileiro’’, diz ele, acrescentando que já visitou o Japão diversas vezes e nunca se sentiu tentado à voltar ao seu país de origem.
O poeta é assim mesmo: gentil. Uma pessoa especial cuja trajetória de vida é admirável. Em retribuição, a vida lhe deu bens materiais que lhe permitem uma tranquilidade bem merecida. A vida também lhe deu o dom de domar as palavras. E o poeta, generoso como é, sabe domá-las com carinho. A vida não brinca com quem é grande. Viva, poeta!

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