Mercúrio e relógio marcaram época
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de junho de 1997
Cláudio Osti 
Quem chegava em Londrina no início dos anos 40 ficava admirado de ver o prédio da Associação Comercial. Muita gente vinha da região só para contemplar a obra. No alto do edifício de dois andares - na época o maior e mais bonito do interior - havia um grande relógio que podia ser avistado na maior parte da cidade. Sobre a sua estrutura foi instalada uma imponente estátua de bronze de Mercúrio. A escultura maciça de 2,20 metros e peso desconhecido foi encomendada por David Dequêch e fundida numa indústria metalúrgica que ficava na Rua Paula Souza, em São Paulo. O nome do autor não ficou registrado.
Mercúrio (ou Hermes), o Deus do Comércio, fascinava Dequêch. Filho do poderoso Zeus e Maia, da mitologia grega, logo depois de nascido roubou o rebanho de Apolo e atravessou com ele toda a Grécia para vender. Zeus ouviu as queixas de Apolo mas não queria acreditar que Mercúrio, tão precoce, havia feito tal façanha. O jovem não se limitava a peraltices com os outros deuses. Era amigo dos pastores, adorava música e inventou a flauta.
Para ser ressarcido do prejuízo, Apolo propôs a Mercúrio uma troca: lhe daria o rebanho e mais uma quantidade em ouro, mas queria o instrumento. Mercúrio aceitou e ainda conseguiu, de gorjeta, o poder de adivinhar. Em pouco tempo tornou-se mensageiro de Zeus e intérprete das vontades divinas. Com certeza, era um dos deuses mais ocupados do Olimpo. Foi Mercúrio, diz a mitologia, quem matou o gigante Argos - o monstro que tinha mais de cem olhos - domou Pégaso, o cavalo alado, além de outras façanhas.
Bala de canhãoMesmo tão poderoso, o Mercúrio da ACL quase foi derretido uma vez. O mortal David Dequêch o salvou. Em 1945, dois oficiais do Exército vieram a Londrina requisitar a estátua para transformá-la em bala de canhão para a 2º Guerra. Dequêch precisou usar toda a sua habilidade e persuasão para dissuadí-los.
A estátua de Mercúrio ficaria no prédio até 73, quando a diretoria da ACL, sob a presidência de Lizandro de Almeida Araújo, demoliu o edifício para construir o novo. O relógio se extraviou. O filho de Zeus foi levado para a Universidade e por lá ficou esquecido durante 14 anos. Só retornou à Acil em 1987, salvo pela administração de Igarassu Louzada. E hoje recepciona as pessoas na entrada do Palácio do Comércio.


