Cassino é uma palavra riscada das leis brasileiras desde 1946, quando o então presidente Eurico Gaspar Dutra determinou o fechamento de todos os estabelecimentos do tipo. Nas grandes cidades brasileiras, permaneceram na memória lembranças desses ambientes de jogatina e confraternização social.
  Em Curitiba, entrou para a história o Cassino Ahú, que viveu seu auge entre os anos de 1940 e 46. ‘‘Antes do Ahú, houve um período de muitos cassinos, que começou na época do Império e se acentuou nas primeiras décadas do século XX. Porém, o interventor Manoel Ribas determinou o fechamento dos cassinos em 1937’’, aponta o pesquisador e presidente do Fórum de Música do Paraná, Manoel de Souza Neto.
  O coordenador do curso de Turismo da Universidade Positivo, Dario Luiz Dias Paixão, relata que aquele ponto do Ahú, onde hoje funciona um anexo do Colégio Divina Providência, começou a atrair a atenção da comunidade no início da década de 1930, porque ali havia uma nascente e o local era utilizado como área de lazer.
  O Cassino Ahú abriu as portas em 1935, mas foi fechado dois anos depois em virtude da decisão de Manoel Ribas. Segundo os pesquisadores, em 1940 o cassino foi reinaugurado, desta vez escorado na Lei de Estâncias Balneárias e Hidrominerais. ‘‘Essa lei permitia que em estações hidrominerais ou climáticas podiam funcionar cassinos’’, explica Paixão.
  Mais do que uma área de lazer, o Cassino Ahú representou uma mudança no perfil do bairro. ‘‘Os proprietários do cassino, Nenê Serrato, Acyr Guimarães e Paschoal Conzo, providenciaram melhorias como iluminação e calçamento nas ruas’’, diz Paixão.
  Souza Neto salienta que, apesar de ser um estabelecimento para os questionáveis jogos de azar, o Cassino Ahú foi histórico por ter se tornado um ponto cultural, grande diferença em relação aos bingos, fechados há poucos anos.
  ‘‘Havia um convênio com o Cassino da Urca, do Rio (o principal cassino brasileiro), e isso colaborava para uma intensa programação cultural, que teve uma orquestra fixa, a Manon, ballet parisiense, atrações de mágica e alguns dos principais nomes da música popular da época: Nélson Gonçalves, Orlando Silva, Dalva de Oliveira’’, afirma o pesquisador.
  O médico Lauro Grein Filho, presidente da Cruz Vermelha do Paraná, estudava medicina à época e foi algumas vezes ao cassino. ‘‘Era a única casa de lazer de Curitiba. Havia um ônibus, que saía do Centro, que ficava à disposição de quem queria ir ao cassino’’, lembra. ‘‘Havia no cassino um leão de chácara de dois metros de altura, o João Cachorro. Dizia-se que para tirar carta de valente em Curitiba era preciso brigar com ele (risos). Mas ele nunca apanhou de ninguém’’.
  O artista Henricredo Coelho era integrante do grupo circense Cinco Diabos Brancos, formado por ele e quatro membros da família Queirolo, sinônimo de circo em Curitiba. ‘‘Fui criado com eles, sou parte da família’’, diz Coelho. Como integrante dos Cinco Diabos, ele, ainda adolescente, apresentou-se no Cassino Ahú.
  ‘‘Era um ambiente muito fino, muito bonito por dentro. A recepção foi muito boa. Éramos muito novos e todos nos aplaudiram de pé. Os nossos números eram executados no salão de dança, e as pessoas ficavam em volta comendo e bebendo’’, relata Coelho. Grandes nomes da política e da elite econômica paranaense da época freqüentavam o Cassino Ahú, e até personagens inusitados apareceram por lá, como Walt Disney, em 1941, de acordo com Dario Paixão. De passagem pelo Brasil, o avião em que o ‘‘pai’’ de Mickey Mouse estava sofreu um problema e teve que aterrissar no Aeroporto do Bacacheri. Disney pernoitou em Curitiba e aproveitou para dar um pulo no Ahú.
  Além da intensa atividade cultural, o cassino tornou-se conhecido pela ótima gastronomia e por possuir uma das primeiras piscinas de uso público de Curitiba. ‘‘A piscina atendia os sócios do cassino e de clubes da cidade. Sob o crivo dos diretores, o uso era liberado até para os não associados e era pago’’, explica Dario Paixão.
  Lauro Grein Filho viu algumas apresentações musicais no cassino (‘‘eu nunca apostava, pois não tinha dinheiro’’, diz ele) e se lembra de uma noite em especial. ‘‘Vi o Sílvio Caldas perder um dinheirão na roleta e depois despreocupadamente subir ao palco para cantar ‘Faceira’’’, conta o médico.
  Souza Neto aponta que as atrações musicais do Cassino Ahú exerceram grande influência no chamado período de ouro da música curitibana, entre 1956 e 65, quando a vida noturna da cidade experimentou dias agitados. ‘‘Houve uma troca de informações que permitiu uma espécie de escola. Muitos cantores importantes vinham a Curitiba desacompanhados, devido aos custos, e ensaiavam e se apresentavam com músicos locais. Isso fortaleceu o período posterior da música na cidade’’, descreve o pesquisador.
  Ele explica também que o Cassino Ahú sugeriu uma mudança de perfil da cidade. ‘‘Curitiba tinha várias pretensões na época de ser reconhecida como uma cidade universitária, mas também de ser um pólo de turismo, como Campos do Jordão, Monte Carlo. Acho que isso levaria a uma cidade muito diferente’’, afirma Souza Neto.
  Entretanto, não houve tempo para continuar a festa: em 1946, Dutra determinou o fechamento dos cassinos. Souza Neto acredita que a herança cultural do Ahú é que permaneceu. ‘‘No sentido moral, os jogos de azar são tidos como péssimos, as pessoas realmente vão para perder, e há a questão do vício. Não é uma coisa legal. Mas por outro lado os cassinos da época, como o Ahú, tinham outras funções além do jogo, e contribuíram para o desenvolvimento cultural das cidades. Havia esse ‘retorno’’’, aponta o pesquisador.

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