Memória viva de um tempo de morte
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de maio de 2007
Denise Ribeiro<br> Equipe da Folha 
Hoje com 50 membros a Legião Paranaense do Expedicionário conserva a história da participação dos cerca de 1,5 mil paranaenses enviados pela Força Expedicionária Brasileira (FEB) para a Segunda Guerra Mundial. Parte dessa história está conservada no acervo do Museu do Expedicionário que reúne documentos, uniformes e equipamentos utilizados durante o conflito, mas o maior patrimônio da instituição é a memória viva de seus integrantes.
Natural de Rio Negro, na divisa do Paraná com Santa Catarina, Flávio Costa, 86 anos, foi para a guerra pouco depois de cumprir o serviço militar obrigatório, na época aos 21 anos, e conta detalhes do que viveu durante o conflito. ''Fomos sem experiência nenhuma. A vantagem da tropa brasileira era ter muitas pessoas do interior. Esse pessoal tinha várias habilidades e facilidade de enfrentar o frio'', lembra. O veterano era integrante do 1º Escalão da FEB, que embarcou no Rio de Janeiro com destino à Itália, em 2 de julho de 1944, e chegou à cidade de Nápoles no dia 16.
Já na chegada, os brasileiros tiveram uma amostra do que viria pela frente. ''A cidade era só ruínas. Nossa luta inicial foi ver a triteza dos italianos e suas famílias. Dividíamos nossa alimentação com eles'', lembra o ex-combatente.
O batismo de fogo de Costa aconteceu no Monte Prano, quando foi morto o primeiro paranaense na campanha da Itália, o soldado Constantino Marochi, natural de Campo Largo. ''No navio ele chorava e perguntava: 'para onde nós vamos?'. Você não tinha certeza para onde ia. Quando ele faleceu fiquei muito triste. A gente tinha que preparar o espírito. Ou enfrentava, ou virava neurose'', conta.
Costa lembra que um dos companheiros de tropa foi mandado para a retaguarda depois de esconder-se nas rochas e pedir aos demais que ficassem lá com ele. ''A gente sofreu muito. Levei sorte, só tive arranhões, nada grave. Tinha pessoas que não tinham experiência e entravam em pânico. Dava crise no pessoal e tinham que tirar eles''. As cartas enviadas aos familiares eram censuradas. ''O que eles achavam que não podia dizer eles cortavam fora. Meu pai ia lendo e analisando o que eu queria dizer'', lembra.
O veterano diz que passou por dois momentos chocantes. O primeiro quando soube que o irmão havia se alistado como voluntário e embarcara para Itália, e o segundo quando precisou carregar o cadáver de um colega atingido na cabeça pelos estilhaços de uma granada. ''Foi uma passagem muito triste. Voltei com neurose. Quando cheguei aqui chorava muito. Não gostava que fizessem perguntas. Fiz tratamento e graças a Deus melhorei'', afirma.
Para Costa, a participação da Segunda Guerra Mundial exigiu muito esforço. ''Foi um sacrifício muito grande. Estavámos fora do país da gente enfrentando os alemães, que eram inimigos muito fortes, e o frio'', avalia.
Já para o ex-combatente Pérsio Ferreira, hoje com 89 anos, a participação na Segunda Guerra foi uma consagração para a carreira como militar. ''Para mim houve motivação de orgulho apresentar-me com as medalhas ganhas. Sou um militar completo pois até a guerra eu fiz'', orgulha-se. Ao contrário de grande parte dos praças, Ferreira foi para o conflito sentindo-se seguro. ''Fui preparado para guerra, sou oficial do exército e fui um dos primeiros a ser chamado. Muitos foram surpreendidos e tomaram parte em combate despreparados para a situação'', compara.
Única paranaense ex-combatente mulher ainda viva, Virgínia Leite, de 90 anos, se emociona até hoje ao contar o que viveu durante o conflito na Itália. ''Não tem coisa pior do que você encontrar com criaturas praticamente aos pedaços. O fato que me causou mais triteza foi encontrar soldado brasileiro sem perna, sem braço, cego. Eu vi a vida de outra maneira depois de ver aqueles horrores'', explica Virgínia, chorando.
Professora em Irati nos anos 40, Virgínia inscreveu-se como enfermeira voluntária após ouvir no rádio ''o barbarismo que estava acontecendo na Europa''. ''Fui com a intensão de ser útil'', lembra. Quando um soldado brasileiro beijou sua mão e disse que era bom ouvir uma das enfermeiras do hospital militar do exército norte-americano falando português, ela sentiu-se recompensada. ''Isso já é suficiente para eu achar que fiz algo de bom na minha vida'', emociona-se.


