A história de uma comunidade pode ser ameaçada de várias formas. Uma delas é o roubo da memória. Recentemente, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) promoveu uma campanha na mídia para a recuperação de bens culturais móveis tombados que foram extraviados, furtados ou roubados em todo o Brasil. No banco de dados do Iphan (disponível para consulta no site www.iphan.gov.br), há mais de 800 objetos do patrimônio cultural brasileiro que estão sendo procurados. Destes, 10 pertencem a comunidades do Paraná: sete de Paranaguá, um de Guaratuba e dois da Lapa (Região Metropolitana de Curitiba).
O superintendente do Iphan no Paraná, José La Pastina Filho, destaca o prejuízo causado pelo desaparecimento de bens culturais móveis tombados. ''Existem gangues nacionais e internacionais especializadas em roubo de objetos de arte e documentos. Esses grupos cometem um duplo crime, contra o patrimônio e contra as comunidades. Os bens culturais têm um valor simbólico e sentimental, de inserção social numa comunidade. Infelizmente, existem pessoas inescrupulosas que se apropriam de bens que pertencem a todos'', diz La Pastina.
De acordo com o superintendente, a campanha midiática realizada recentemente pelo Iphan faz parte dos eventos relativos aos 70 anos do instituto, comemorados no ano passado. ''O Brasil é signatário de vários acordos internacionais para coibir o roubo de bens culturais, com parcerias junto à Unesco e à Interpol'', explica.
A respeito dos bens procurados no Paraná, La Pastina aponta que durante algum tempo os objetos tombados no Estado estavam ''a salvo'' da ação das quadrilhas, pois o maior interesse dos grupos criminosos recaía sobre obras do período barroco. Entretanto, depois os ladrões começaram a buscar também bens culturais confeccionados em períodos posteriores.
Lapa lamenta furto de Santo Antônio
Na Lapa, a comunidade ainda lamenta o furto da imagem de Santo Antônio de Lisboa, ocorrido na década de 1980. Registros apontam que a escultura tem 1m10 de altura, é feita de madeira policromada e tem esplendores de prata sobre as cabeças do santo e do Menino Jesus.
A imagem ficava no altar da Igreja Matriz de Santo Antônio. Segundo o pároco, padre Emerson Lipinski, o santo é uma réplica original que foi trazida de Lisboa quando a paróquia foi criada, em 1769. Anos após o furto da imagem, outra escultura, produzida no Brasil, foi colocada no altar. Mas a comunidade sente que não é a mesma coisa.
''Há uma lamentação muito grande na Lapa. Parece que os fiéis estão sem o Santo Antônio. Há um sentimento de perda e isso é algo coletivo. Estou aqui na paróquia há apenas um ano e percebo essa sensação na comunidade'', afirma o pároco.
Ladrões ameçaram voltar à Igreja
Ex-prefeito do município (exerceu o cargo três vezes), o diretor do Cine-Teatro Imperial da Lapa, Sérgio Leoni, diz ainda ter esperança de que a imagem seja encontrada. ''A Lapa é cheia de história. Uma das relíquias era essa imagem de Santo Antônio, que juntamente com a Igreja Matriz é testemunha de muitas gerações de lapeanos, alguns deles ilustres, como Ney Braga. A igreja continua sendo a principal referência histórica e religiosa da Lapa'', comenta Leoni, que não era prefeito quando a imagem foi furtada.
Vera Lúcia Pinto Silveira, que é funcionária da paróquia há mais de 20 anos, se lembra do dia em que a imagem foi furtada. ''O furto foi durante a noite. Pelo que comentam, os ladrões provavelmente entraram na igreja durante a missa, se esconderam e depois fugiram com a imagem. Quando as pessoas da paróquia voltaram de manhã, o Santo Antônio não estava mais lá'', explica a funcionária. Segundo Vera, os ladrões ainda deixaram um bilhete no qual ''diziam que iam voltar''.
Leoni aponta que um comerciante da Lapa chegou a ver os ladrões. ''Ele viu porque tinha uma lojinha na esquina, ao lado da igreja, e os ladrões estacionaram ali perto'', conta o ex-prefeito. ''Eu acho que faltou empenho da Polícia Federal. Talvez não houvesse estrutura ou equipamentos adequados na época, mas em todo caso não tivemos resposta. Mas não quero culpar a PF. O brasileiro em geral não respeita a história. A única forma que vejo de recuperar a imagem é oferecer uma recompensa, fazer uma grande mobilização''.

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