Zmagania Polonijne W Brazylii, ao final da prateleira Z, é o último dos sete mil livros sobre a história do Paraná que Max Conradt Jr, 76 anos, tem em casa. ‘‘A minha família me pergunta: ‘Mas e aí, o que você vai fazer com um dicionário de termos brasileiros em polonês se nem fala a língua?’’’. ‘‘Nada’’, ele responde. Max mora no bairro das Mercês, em uma confortável residência horizontal de 400 m2. Lá, vive em meio a livros, cartazes de filmes, coleções completas de revistas, pinturas e com a esposa Lilian, com quem é casado desde 1964.
  Na ampla sala de estar, 44 quadros de pintores paranaenses. Entre eles, um raro óleo de Poty Lazzarotto, imagens de uma Curitiba de outros tempos e obras de Helena Wong, Miguel Bakun, Paul Garfunkel e Guido Viaro.
  ‘‘Nunca me atrevi a pintar. Mas, à moda do poeta, todos cantam a sua terra. Só tenho paranaenses aqui.’’ Muitos deles, inclusive, freqüentaram aquela sala entre os anos de 1985 e 1995, quando anualmente realizou um encontro de pintores no dia da primavera, em setembro.
  Em uma ocasião, em que os mais de cem convidados consumiram oito litros de uísque Logan, dois deles, de origem alemã, quase chegaram às vias de fato. ‘‘Um apontou para a pintura do outro na parede e disse ‘Você me desculpa a franqueza, mas este do Nhundiaquara é uma m...!’’’. Enquanto conta, Max imita com precisão o sotaque alemão, que também era o de seu pai, responsável pela assinatura Max Conradt em um dos quadros – uma paisagem de um barco na África. ‘‘Ele lutou na 1ªGuerra Mundial e veio para o Brasil. Acho que é herança de sua formação como pintor a origem de minha paixão.’’ O Max Conradt Jr. nasceu em Curitiba no dia 23 de junho de 1932.
  Em 1948, teve o seu primeiro emprego, na Maison Blanche. ‘‘No dia em que cheguei, me disseram: ‘a vassoura está ali’.’’ Doze anos depois, Max tornou-se um dos donos. Em fevereiro de 1964, leu em um jornal da Capital: ‘‘Comissário Galvão vende Cine Curitiba.’’ Propôs aos sócios e juntos compraram o imóvel na Rua Voluntários da Pátria entre a Praça Osório e a Rua Emiliano Perneta, onde passaram a comercializar as roupas infantis. ‘‘O sonho do Brian Epstein, empresário dos Beatles em priscas eras, era ser um grande músico. Com o perdão pelo delírio, este que vos fala não virou ator ou diretor, mas comprou um cinema.’’
  O jornalismo que lhe trouxe a notícia da compra de seus sonhos também entregou as novas que ele não queria espalhar na cidade. ‘‘Empresário da Maison Blanche comprou quadro de Maysa’’, deu a coluna de Carlos Jung. Havia comprado escondido o retrato da cantora e paixão anterior ao seu casamento por ‘‘muito mais do que eu ganhava no mês’’.
  ‘‘Alguma alma caridosa ligou e avisou minha esposa. Ouvi muito naquele dia. Minha família sempre questiona: ‘Você poderia ter comprado terrenos, carros importados, viajado o mundo’. O essencial foi que comecei a entender melhor a vida.’’ O retrato da pintora que passou anos escondido em esconderijos variados, como o porta-malas de um carro, foi, por fim descoberto.
  Max passa seus dias organizando suas coleções. ‘‘Tenho coisas que até Deus duvida.’’ Entre elas, a coleção da Playboy norte-americana desde o primeiro volume, de 1952, com Marilyn Monroe devidamente vestida na capa. ‘‘Faltam cinco exemplares. Mas, se eu comprá-los, dá divórcio.’’
  Quando mostra os primeiros volumes, lembra, devidamente, que valem uma fortuna. ‘‘Sou avô, mas não sou cego’’, brinca. ‘‘Estou atento ao mundo exterior. Do contrário, sou um isolado do mundo em minha biblioteca cheia de ácaros.’’ Na primeira das salas dedicadas à sua coleção, há uma enorme prateleira com livros de pintura importados. ‘‘O que eu gastei aqui...’’
  Na mesma sala, o começo de suas coleções de revistas, com todos os volumes da Senhor. Na seguinte, as 19 prateleiras da Biblioteca Paranista, nome dado por Amaury Brand, que fez uma escultura em homenagem ao espaço. Nas paredes, onze retratos de Alcy Xavier, feitos sob encomenda de Max, dos homens que considera os mais importantes por retratar a história do Paraná.
  Em sua opinião, o mais relevante é José Francisco da Rocha Pombo, autor dos dez volumes de ‘‘História do Brasil’’, com a edição de 1917 presente na biblioteca. Outra raridade é o relatório da primeira sessão da ‘‘Assemblea Legislativa da Província do Paran㒒, datada de 1855.
  Max chama de ‘‘caos’’ outra sala atingida por seus hobbies, a garagem, uma área com as coisas que ele ainda precisa organizar. Lá, entre caixas, ele guarda um poster da Santa Ceia com ícones de Hollywood, que tem Marilyn Monroe na posição central. ‘‘Minha família considerou um insulto. Me deu muito trabalho.’’
  Na sala ao lado, mais revistas, como os fac-símiles de todas Joaquim, editadas por Dalton Trevisan. Alguns metros à frente, uma porta revela a coleção completa de Manchete, entre preciosidades como 150 números da italiana Cinema Nuovo. Não parou no tempo, e, além de continuar completando as coleções – o que inclui a da Playboy norte-americana – com os novos números e guardando recortes de jornais, tem todos os números da piauí, que recentemente completou dois anos.
  ‘‘Desde criança, eu tenho o bicho. Dizem as más línguas que os alemães têm o bicho da coleção.’’ Max começou com os quadrinhos de Flash Gordon ilustrados por Alex Raymond. Alguns criticam à sua coleção, como, por exemplo, dizendo que a revista Manchete não presta ou mesmo não entendendo a sua razão. ‘‘Se é lixo? Então faça outra vez. E escreva melhor. Esse é o desafio.’’
  Max tem a esperança de que, um dia, alguém possa usar seu acervo pessoal como fonte de consulta. Sua casa fica nas Mercês, como ele mesmo diz, entre dois padres: as ruas Padre Anchieta e Agostinho. Sua principal religiosidade, porém, é com a memória. ‘‘Quem não sabe da onde veio, não sabe para onde vai.’’

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