Folião de carteirinha do carnaval de Curitiba desde 1956, Glauco Souza Lobo se tornou um dos carnavalescos mais conhecidos e um entusiasta da festa. Virou ‘súdito de Momo’ como integrante da Escola de Samba Embaixadores de Alegria, que teve como um dos fundadores o seu pai, Aldo de Souza Lobo. Chamava a atenção pela irreverência: toda segunda-feira de carnaval saía vestido de mulher no bloco ‘‘Vai na rolha quem quer’’. Encarnou Maristela Requião, Margarita Sansone, a Viúva Porcina, segundo ele mesmo. Fundou também um bloco, o ‘‘Não Agite’’, que depois também virou escola de samba.
  ‘‘O bloco é a manifestação básica da folia de Momo. Todas escolas antes eram blocos, exceto o Colorado, que já nasceu como uma escola de samba. E essa mudança foi impulsionada graças aos desfiles do Rio de Janeiro’’, conta ele, que resgata a história do carnaval curitibano. No começo do século passado, em torno de 1920, a festa momesca se manifestava nas batalhas de confete na Rua XV de Novembro e nos desfiles de carros, os famosos corsos. Assim permaneceu até 1946, quando surgiu a primeira escola de samba curitibana, o Colorado, na Vila Tassi, onde hoje é o bairro do Capanema.
  ‘‘Maé da Cuíca é um nome que nunca deve ser esquecido, foi um dos nossos primeiros compositores de samba. Os seus companheiros de escola assim como a bateria do Colorado fizeram história’’, pontua Lobo, acrescentando que depois surgiram outras escolas de samba. Segundo ele, as sociedades operárias, que existiam aos montes na cidade, mantinhaM a tradição dos bailes carnavalescos, como as que existiam no Batel, Bacacheri, Barigüi, Seminário, Água Verde e Portão. ‘‘Os bailes da 13 de Maio e do Operário eram os carnavais dos negros. Nos anos 1960, havia no Operário os famosos bailes Gala Gay, inclusive, a alta sociedade participava, só que mascarada e nos camarotes’’, disse.
  ‘‘Não posso deixar de lembrar de nomes importantes da década de 1960, como Jubao, da Dom Pedro II, o Afunfa, que foi o único bicheiro envolvido no carnaval da cidade, o Charrão da Mocidade Azul. Além deles, acrescento o Nelson Santos (compositor), o Nelson Gonçalves que foi nosso Rei Momo, Reinaldo de Carvalho, famoso como o Rei Momo Bola – foi Rei Momo até do Rio de Janeiro – e os puxadores de samba Mansueden dos Santos Prudente (o ‘‘Chocolate’’) e o Picol钒, elenca Glauco Souza Lobo, que foi presidente da Fundação Cultural de Curitiba.
  Até 1960, os desfiles ocorreram na Boca Maldita, onde era armado um palco para que os grupos subissem e se apresentassem. ‘‘Era muito legal porque quando os blocos se cruzavam na Rua XV um tentava quebrar o samba do outro. A brincadeira era deixar a bateria da outra perdida, mudando rapidamente a batida. Só que o Colorado era a única que nunca se perdia, porque o Maé tratava de tocar sua cuíca, fazendo um grande ruído e botava ordem na casa’’, lembra ele.
  Depois de 1965, quando a Marechal Deodoro foi restaurada e alargada é que as escolas passaram a se apresentar lá, num percurso de 720 metros, dos quais 400 tinham arquibancadas. ‘‘A Marechal é o palco das manifestações populares de Curitiba, só os idiotas é que não enxergam isso. Ela está localizada a menos de 500 metros de qualquer ponto de ônibus no Centro, permitindo que a população de toda cidade tenha fácil acesso. O Centro Cívico virou o cemitério do samba’’, criticou ele.
  Lobo observa que, entre 1960 e 1986, a cidade viveu ‘os anos dourados’ do carnaval, em seguida é que foi se desmantelando e minguando a infra-estrutura e o apoio às escolas. ‘‘O desfile é apenas o orgasmo do carnaval. O mais importante são os preparativos da festa que unem as comunidades nos barracões. Ali surgem artes plásticas, a música, o teatro, a dança, a criatividade. Nosso carnaval é familiar, artesanal, feito pelo povo e para o povo. E a Prefeitura nega isso. Tudo que se investe no carnaval de Curitiba, hoje, não chega a 10% do que se gasta uma única escola do Rio de Janeiro’’, compara.

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