Memória arquitetônica em perigo
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sábado, 13 de março de 2004
Fábio Galão<br>Reportagem Local 
''Patrimônio não é o que existe, mas o que você vê''. A afirmação do arquiteto Humberto Yamaki, professor do Departamento de Arquitetura da Universidade Estadual de Londrina (UEL), é acompanhada de uma constatação: é preciso ensinar a população a enxergar e valorizar o patrimônio cultural da cidade.
Nos últimos anos, o departamento de Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal de Cultura realizou vários estudos sobre a arquitetura de Londrina, coordenados por Yamaki. Embora sejam trabalhos quase que exclusivamente técnicos, tais pesquisas deixaram nas entrelinhas questionamentos sobre a forma como a cidade vem preservando seu patrimônio arquitetônico. Segundo Yamaki, os leigos tendem a confundir preservação do patrimônio com manutenção de museus, prédios públicos, monumentos. ''Mas patrimônio também são bairros, praças, espaços públicos, casas, esquinas, igrejas, templos, denominações de ruas e avenidas'', diz o arquiteto.
Nesse sentido, Londrina vem, com velocidade considerável, apagando parte de sua história arquitetônica. Nos bairros, a tradição de residências horizontais vem sendo quebrada pela construção pouco criteriosa de prédios. ''A homogeneidade é uma qualidade urbana. Bairros e regiões com padrões semelhantes de edificação denotam uma identidade, uma personalidade reconhecível. Certos bairros têm perdido isso'', afirma Yamaki. As casas de madeira, símbolos do período dos pioneiros, estão sumindo da paisagem e atualmente se concentram em poucos bairros, como as vilas Casoni e Brasil (Área Central).
Os barracões de café, muitos deles localizados na Avenida Leste-Oeste, também vivem momento de sobrevida. Segundo Yamaki, muitos foram destruídos e outros estão abandonados ou sofreram intervenções estruturais que descaracterizaram a obra original, mantendo apenas fachada ou fragmentos. ''É necessário saber utilizar o potencial da edificação para outros fins e fazer alterações criteriosas'', opina o arquiteto.
Yamaki acredita que mudanças são naturais e inevitáveis, mas aponta que Londrina talvez ainda não tenha dado a devida atenção ao patrimônio arquitetônico porque é uma cidade comparativamente jovem. ''Aqui existe uma mentalidade de dinamismo, de que as coisas devem ser transformadas o tempo todo'', argumenta. ''Diz-se que esta é uma cidade nova, onde tudo ainda está para ser feito. E falta uma educação para que seja dada importância ao patrimônio arquitetônico''.
Na opinião de Yamaki, as pesquisas da Secretaria de Cultura são um primeiro passo para a criação de leis sobre a conservação do patrimônio. Segundo ele, a partir daí, pode-se planejar uma cidade com maior qualidade de vida. ''Não é algo retrógrado, pois (a preservação) abre portas para o futuro. Restaurar construções, por exemplo, gera empregos. E hoje as principais discussões nacionais sobre cidades consideram a identidade dos municípios''.


