Quando um filho das terras vermelhas do Norte do Paraná pensa na história de sua região, logo vem à mente aquelas fotos em preto e branco que mostram alguns pioneiros posando em meio às gigantescas raízes de árvores. Estas raízes aparentes, chamadas de sapopemas, são muito comuns numa espécie singular de nossa flora, a figueira branca. Árvore de grande porte, com mais de 20 metros de altura, rivalizava na copa da mata com a peroba rosa, outra espécie emergente e que impressionava os colonizadores pela altura e robustez.
Ao longo da história, as duas espécies, embora de maneiras diferentes, sofreram grande decréscimo na mata. A figueira, por ter madeira considerada `mole´, não tinha utilidade para os pioneiros, razão pela qual acabou sendo consumida pelas queimadas que aceleraram o desmatamento. Foi um triste fim para a espécie que era considerada uma indicadora de qualidade do solo – onde se localizavam as figueiras mais altas, o solo era considerado de melhor qualidade.
Por outro lado, a peroba foi a espécie mais utilizada na construção civil e na movelaria. Para isso, ela era retirada da mata e encaminhada para beneficiamento nas serrarias. Londrina ainda hoje exibe velhas casas feitas de peroba.
"Era considerada a representante mais nobre porque tinha um aproveitamento enorme. Só a galhada e o topo se perdiam. Uma peroba com mais de 20 metros dava para fazer uma casa e acho que sobrava madeira", afirma o geógrafo José Luiz Alves Nunes, do Ippul. Não foram poucos os pioneiros que, ao adquirir um lote de terra, utilizavam a madeira da própria área para construir seus imóveis.
Além da durabilidade, a madeira da peroba é imune ao ataque de cupins e outras pragas. Por isso, era utilizada na estrutura de sustentação das casas. Até mesmo os tocos, que não passavam por beneficiamento, eram utilizados como base para vigas baldrame.
Antes da peroba, outra espécie foi bastante utilizada para construção de abrigos para pioneiros – neste caso, provisórios e mais simples: os palmitos. Nas primeiras expedições dos colonos, era comum a utilização de ranchos de palmito para pousos e descansos. Mais tarde, com o crescimento da cidade, a utilização do palmito foi descartada e a espécie passou a ser queimada juntamente com árvores consideradas sem utilidade nas cidades.
Segundo estimativas daquela época, apenas 4% das árvores tiveram serventia para a construção das cidades; o restante foi consumido pelo fogo que acelerava a limpeza dos terrenos para dar lugar às lavouras de café.

Imagem ilustrativa da imagem MEMÓRIA
Imagem icônica: pioneiros posam ao lado das raízes da figueira, espécie vítima das queimadas durante a colonização
Imagem ilustrativa da imagem MEMÓRIA
Imagem ilustrativa da imagem MEMÓRIA
Imagem ilustrativa da imagem MEMÓRIA
Do corte ao beneficiamento, imagens históricas flagram o ciclo da peroba: madeira foi a mais utilizada na construção civil e movelaria no Norte do Paraná