MEMÓRIA - Venda dos Pretos também tem história
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domingo, 22 de janeiro de 2006
Francismar Lemes<br>Reportagem Local 
O preto de olho azul, que nem conta de lágrima, habitaria com legitimidade em qualquer lenda. Mas o quintal de sua sina, que não terminou ao morrer dormindo, é um bar de madeira, balcão de peroba-rosa, onde quem encosta o bucho sai manchado de histórias.
Ninguém se lembra mais quem teria sido o primeiro dono do bar do preto conhecido pelo flagrante olho azul. A vendinha até parece que nasceu sozinha, incrustada no alto do distrito londrinense Espírito Santo, na Zona Sul da cidade.
Na Venda dos Pretos e vizinhança, o que hoje se sabe é que há mais de 50 anos o baiano João Marques Neves chegou com a matula nas costas, deixando para trás Paramirim, na Bahia, segurando noutra mão a fiarada nove barrigudinhos ao todo.
A família veio de pau-de-arara até São José do Rio Preto (SP), desembarcando em Londrina no sacolejo do trem de ferro. O terço final da viagem de oito dias até o distrito foi a pé.
Esse é um pitéu de história, que está lá riscada no balcão de peroba do bar, relíquia do tempo do véio João Neves, que fechou o olho azul há sete anos, depois de virar octogenário.
Para quem quiser encostar a barriga e comprovar essa história, as prateleiras enfeitadas com garrafas de cachaça, a marvada de nove entre 10 fregueses, também resistiram ao progresso, que tornou o chão de terra batida, o quintal da venda, um dos mais caros de Londrina.
Do alto da vendinha, a gente vê cada vez chegar mais perto um novo tipo de migrante esse mais urbano que o seo João Neves trocando os prédios da cidade pelos condomínios fechados da região.
Atualmente, quem quiser ser vizinho da Venda dos Pretos e dos restaurantes de comida caipira, que pipocaram na zona rural, não vai comprar terra em alqueire. O negócio é feito em metro quadrado, que custa em média R$ 15,00.
Já deram preço pelo bar. Eu digo sempre: aqui não tem nada para vender, diz Izolina Maria de Jesus Francisco, uma das filhas do preto de olho azul. Em troca da oferta, ela tem sempre um esquenta goela, que é para não perder o freguês.
Esse bar é uma relíquia que tenho. Quando foi para o meu pai falecer, pediu para eu tomar conta. Desse pedaço de terra não me desfaço, completa a mulher de 66 anos de idade.
A filha Maria de Fátima Francisco, 40 anos, ajuda Izolina a guardar esse tesouro, conquistado pelo velho João Neves, negro iluminado pelo olho claro, enxergando oportunidade nas terras que estavam para além da Bahia na desembalada dos nordestinos rumo ao sul do País.
O meu pai era do mundão. Era de abrir mato. Minha mãe ficava esperando por ele em casa. Depois, quando não deu mais para andar sozinho, trouxe nós, lembra ainda Izolina, ponteando a conversa com a recordação da época em que no distrito também era tudo mato e as estradas, um picadão aberto com foice.
Por essa picada demarcada agora pela memória de Izolina dá para ver alguns afamados freqüentadores da venda, como o pioneiro Álvaro Godoy. Meu pai ajudou o seo Álvaro abrir a fazenda dele. Ele era um homem gordo, baixo, com uma barba branca comprida, andando com um chapeuzão de palha. Teve um cunhado meu que criou com ele e morreu lá na fazenda.
Olhando para a pilha de bancos encostados num canto do bar, Izolina lembra que a notoriedade da casa não se fez só com personagens do passado, não havendo distinção entre a visita de um político e a de simples viajantes perdidos em busca de informações no bar, que fica numa esquina de Londrina.
No tempo em que tinha o aeroporto aqui perto, isso aqui era mais movimentado. Hoje, muitas pessoas estão buscando sossego, trazendo de volta a movimentação aqui, ressalta Izolina, acrescentando que a venda não fecha nem no Natal, sendo um lugar onde as pessoas chegam e ficam à vontade.
Depois do seo João Neves, e antes de Izolina, já passaram pela vendinha os filhos do velho baiano, José e Antônio.
Deixando a picada, que dá acesso ao passado de lado, a Venda dos Pretos ainda é referência na região. Não considero isso aqui um bar. Para mim é uma casa de família, compara a comerciante, que às quintas-feiras abre as portas para os boleiros, que depois da pelada vão molhar as palavras.
O meu irmão é um dos que gostam de jogar truco lá na venda, depois do jogo. Aí a gente sobe com a turma, conta o metalúrgico Aristides Freitas, 53 anos. Ele é filho do seo Joaquim Gonçalves, considerado o freqüentador mais antigo da Venda dos Pretos. Os 85 anos de idade do agricultor lhe dão este direito, tendo sempre um banco reservado na galeria de histórias da venda.
A nostalgia com que diz que nasceu no dia 4 de outubro de 1920, em Ribeirão Preto (SP), é capaz de fazer pensar que ontem mesmo estava cortando cabelo dos peões na venda. E já se vão 10 anos em que aposentou as tesouras... No tempo do Godoy, a peonada cortava cabelo com a gente ali. Aprendi a cortar cabelo com a criançada. O seo Godoy não fazia cabelo comigo. Era homem rico. Hoje vou lá na venda só brincar de truco, conta Joaquim, que há 45 anos chegou à região, com a mulher, dona Isaura Freitas Gonçalves.
A filha dos Gonçalves, Cleuza Aparecida, 59 anos, marca a estrada do tempo e a história da Venda dos Pretos com as pedras do progresso. Antes o pessoal da venda vinha buscar água de poço no nosso sítio, levando nas costas. Há poucos anos também só tinha telefone público lá no bar. Recentemente instalaram um cabo com mais 30 terminais. Agora temos linhas de sobra. Também aumentaram os ladrões na região. Aqui, o preço da terra é caro, pessoas mais ricas estão mudando para cá. Um vizinho que não se deu conta ainda da mudança, achando que ainda era um lugar sossegado, deixou a chave dentro do carro e teve o veículo roubado. Há 10 anos não tinha preocupação, comentou.
É desse sossego que a dona Izolina ainda não sente falta, pregando em cada mata-junta da Venda dos Pretos a promessa feita ao velho João Neves: Não hei de vender o bar. Tenho que prestar essa jura para o meu pai, conclui a mulher, fazendo mais uma vez as honras da casa dos pretos: Se precisar da gente de novo, pode vir chegando...


