No início, era apenas mata. Uma exuberante floresta tropical com árvores de todos os tamanhos, dezenas de espécies diferentes de animais e aves que dominavam o céu e a terra. No final da década de 1920, vem o processo de colonização e a construção das cidades. Na sequência, aparece a atividade rural, primeiramente com o café, depois com o milho e a soja, e a imigração populacional.
Nos dias de hoje, 80 anos depois do início desse processo, o Norte do Paraná é uma região que se destaca pela pujança do desenvolvimento econômico, mas também por um cenário de devastação da mata nativa, hoje reduzida a apenas 4,2% da área original, de acordo com a organização não-governamental SOS Mata Atlântica.
Quando os colonos começaram a chegar à região, a mata era vista como um risco para a saúde das pessoas, em razão dos animais e predadores ali presentes, e também como a fonte provedora da madeira utilizada para construção de casas, móveis e outras benfeitorias.
"A expressão desbravar a mata significava tirar o que é bravo, tirar o perigo, uma ideia que se opunha ao progresso. Então, no início, havia esse entendimento de eliminar a mata para colocar uma atividade agrícola ou um loteamento no lugar", conta o geógrafo e urbanista José Luiz Alves Nunes, do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina (Ippul).
De acordo com os relatos daquela época, até mesmo a derrubada da mata oferecia imensa dificuldade aos colonos, tal a densidade da vegetação. Para dar conta do serviço, era comum a contratação dos mateiros, profissionais especializados em derrubar as árvores e extrair dela as melhores madeiras.
"O mateiro era um profissional habilíssimo, que conseguia entrar na mata, em meio aos cipós e vegetação fechada, e retirar dali a peroba, o marfim. O resto da madeira, de 30 cm (de diâmetro) para baixo, não compensava levar na serraria. Então, ele extraía as toras maiores e passava fogo no resto", conta Nunes.
Além da utilização da madeira – em especial das perobas – na construção civil, a chegada da ferrovia ao Norte do Paraná foi outro fator que impulsionou o desmatamento. Era comum, naquele tempo, que as propriedades localizadas às margens da ferrovia fornecessem lenha para ajudar a movimentar os vagões.
Em 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial, o preço do café dispara no mercado internacional e aumenta a pressão pela derrubada das matas para dar lugar às lavouras do `ouro verde´.
"Nessa época correu dinheiro, as coisas mudaram rapidamente e choveu de gente. Com isso, a derrubada deslanchou e atingiu todos os arredores da cidade", conta o jornalista Widson Schwartz, um dos maiores estudiosos da história de Londrina e do Norte do Paraná.
De acordo com ele, não havia durante a colonização qualquer regramento sobre preservação ambiental, tanto governamental quanto pela Companhia de Terras Norte do Paraná. No final da década de 1930 é que surgem os primeiros marcos legais ambientais, no governo Getúlio Vargas, obrigando a preservação de 10% das propriedades. Porém, sem qualquer fiscalização efetiva, a norma não teve efeito sobre as derrubadas.

Imagem ilustrativa da imagem MEMÓRIA - Cidades pujantes, mata devastada. Eis o legado da colonização
Imagem ilustrativa da imagem MEMÓRIA - Cidades pujantes, mata devastada. Eis o legado da colonização