Megalópoles em todo o Estado
Falar sobre o futuro da urbanização e das cidades é coisa temerária. Mas não falar sobre o futuro é deserção. Não se trata do futuro como certeza, porque isso seria desmentir a sua definição, mas como tendência.
(Milton Santos, A Urbanização Brasileira, São Paulo, Hucitec, 1993, p.117)
Nesse momento de mudança não só de século, mas também de milênio, torna-se oportuno e necessário refletir sobre qual deve ser o nosso olhar sobre a cidade do futuro.
Voltando a atenção para o século que se encerra, veremos que a urbanização paranaense se constituiu muito recentemente. Em 1940, apenas 24% dos paranaenses viviam em cidades, em 1996 eram 78%. A inversão dos índices entre população rural e urbana ocorreu entre as décadas de 70 e 80, quando um intenso movimento migratório, constituído a partir da saída da população do campo em direção às cidades, elevou a taxa de urbanização na maioria dos municípios paranaenses.
Uma vez consolidado o processo de urbanização, o que esperar do futuro das cidades paranaenses? Algumas observações parecem fundamentais para fomentar uma reflexão sobre o tema, bem como vislumbrar tendências, são elas:
O Censo 2000 indica o fortalecimento das espacialidades de concentração, ou seja, espaços constituídos não mais por uma mancha urbana contida nos limites político-administrativos do município, mas por uma mancha urbana que ultrapassa esses limites. Nesse contexto, destacam-se três grandes aglomerados urbanos, de caráter metropolitano ou não, são eles: a Região Metropolitana de Curitiba, o Norte, capitaneado pelas aglomerações de Londrina e Maringá e o Oeste, por Foz do Iguaçu e Cascavel. A realidade de aglomeração apresenta-se cada vez mais forte, independente do número de cidades/municípios componentes;
Como a outra face da concentração, o processo de esvaziamento dar-se-á na maioria dos municípios paranaenses, seja na situação onde os mesmos terão perda absoluta de população, seja naquela onde o crescimento será inferior à média do Estado, com consequências diretas nas cidades, sedes urbanas desses municípios;
O fortalecimento das aglomerações urbanas exigirá novas formas de enfrentamento dos problemas de gestão, pois, à fragmentação político-administrativa existente no aglomerado contrapõe-se a necessidade de soluções conjuntas para problemas como o lixo, a água, o transporte, dentre outros, que perpassam diversos municípios, colocando em xeque as instituições hoje existentes, bem como os mecanismos de intervenção nesses espaços;
A Região Metropolitana de Curitiba seguirá concentrando porções cada vez mais expressivas da população estadual. Assim, enquanto a população total do Paraná deverá ter um acréscimo de cerca de 1,5 milhão de habitantes entre 1996 (IBGE) e 2010 (Projeção Ipardes/IBGE), passando de 8.992.170 para 10.550.110; a população da Região Metropolitana de Curitiba deverá ter um acréscimo de cerca de 1,3 milhão de habitantes, passando de 2.427.985 para 3.703.492. Uma simples conta de subtração nos aponta uma preocupante perspectiva futura, cujos reflexos não se limitarão ao município de Curitiba, pois a maior parte dessa população não estará nele fixada, mas no aglomerado metropolitano.
A partir do exposto, duas possibilidades se apresentam: apostar na não-concretização dessas tendências e das próprias projeções que as referendam, ou então encarar o problema com a antecipação por ele exigida, buscando criar novos mecanismos e instrumentos de intervenção e de gestão, condizentes com a complexidade dos espaços aglomerados. Eis o grande desafio para o século que se inicia. Quando a tendência se transformar em certeza, haverá pouco a fazer, mas, enquanto ela é tendência, é possível modificá-la.
- Olga Lúcia Castreghini de Freitas Firkowski é professora do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba





