Na sala de espera do consultório, fotos mostram construções antigas, ruas sem asfalto, lama, poeira, rostos com o olhar em algum ponto do futuro. São imagens em preto e branco, que só sugerem que o barro é vermelho e deixam apenas vislumbrar o que viria a ser aquela (ainda pequena) cidade.
  É Londrina, de um tempo que já passou, mas que continua na memória e no coração de quem chegou moço ‘‘para ganhar a vida’’. As imagens não enganam - estamos no consultório de um dos muitos médicos pioneiros de Londrina, que viram a paisagem mudar, a cidade crescer, e a tecnologia revolucionar a medicina. E nesse meio tempo fizeram da cidade o grande centro de saúde que é hoje.
  Os anos não fizeram o cirurgião Jonas de Faria Castro Filho, com ‘‘quase 87’’ anos, proprietário do consultório em questão, o ginecologista e obstetra João Henrique Steffen Júnior, de 82, e o cirurgião João Dias Ayres, de 92, esquecerem dos problemas de saúde
que a população padecia
na época. Nem do
quanto a cidade foi importante em suas vidas.
E vice-versa.
  Sem água encanada, energia elétrica, ou qualquer infra-estrutura de saneamento básico, as parasitoses e doenças tropicais infecciosas, como a malária, figuravam entre as principais doenças. E se hoje, elas ainda desafiam a saúde pública, é fácil imaginar como era 40, 60, 70 anos atrás. ‘‘As chuvas torrenciais enchiam os rios (Tibagi e Paranapanema) e a água invadia a região. Com
isso as doenças tropicais se tornavam problemas sociais’’, lembra Ayres.
  Formado em 1937 pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Ayres escolheu Sertanópolis ‘‘para começar a vida’’, antes de vir a Londrina, onde seria chefe do 17º Distrito Sanitário, de 1954 a 1980. ‘‘Vim preparado para enfrentar uma região nova. Estava começando minha vida, querendo colocar em prática o que tinha aprendido na escola. E a Mariana (esposa) topou essa
comigo’’, conta.
  No consultório, havia uma escrivaninha e um armário para os remédios, mas para atender os pacientes era a estrada que tinha que enfrentar. De preferência ‘‘com um machado e um bom motorista que entendesse de mecânica’’, lembra Ayres. Por conta das derrubadas da mata para o plantio de café, traumatismos e ferimentos também eram comuns entre os colonos. Assim como a leischmaniose, ou a ‘‘úlcera de Bauru’’, causada pela picada do mosquito flebótomo.
  Já Steffen Júnior chegou a Londrina em 1950 prometendo voltar a São Paulo em dois anos. ‘‘Durante 10 anos ainda pensava que iria voltar, até que um dia me convenci que não. Fui me envolvendo e fiquei o resto da vida’’, constata. Veio a convite do pastor Luís Boaventura para auxiliá-lo na construção de um hospital. Isto porque a Santa Casa, inaugurada em 1944, nesta época já ‘‘vivia lotada’’, e Londrina precisava de
outro hospital.
  Foi construído então, com recursos do Estado, ‘‘mas principalmente através de contribuições espontâneas’’, o Hospital Evangélico, no prédio onde hoje funciona a Companhia de Habitação de Londrina (Cohab), na Rua Pernambuco. ‘‘Só alguns anos depois, lá pelos anos 65, 66, que se conseguiu obter um recurso substancial da Alemanha, que permitiu a construção do prédio na Avenida Bandeirantes’’, ressalta.
  Hoje ginecologista e obstetra, Steffen Júnior lembra que quando iniciou na profissão os médicos eram, em sua maioria, generalistas e atendiam ‘‘de tudo’’ - desde a gestante, até o acidentado. Antes que a tecnologia fizesse as especialidades se multiplicarem, ‘‘todo tipo de diagnóstico era clínico’’, até porque os recursos laboratoriais também eram menores, e ‘‘a formação médica era mais ampla’’. ‘‘Naquela época a gente tinha condição de terminar o curso e já atender’’, aponta.
  Steffen Júnior lembra que as parturientes da época não iam ao hospital para ter filhos, mas atendidas por parteiras, e o número de natimortos era grande: ‘‘eram ‘curiosas’ que atendiam (as gestantes na hora do parto), e se a parturiente tivesse que ir ao hospital isso representava um fracasso para elas’’.
  Ele viu a obstetrícia dar ‘‘um salto gigantesco’’ nas últimas décadas. Com alguns paradoxos: ‘‘Há alguns anos já não se pensa mais em fazer parto em casa. A analgesia melhorou muito, e também a segurança da cirurgia, mas por conta disso, são realizadas muitas
cesáreas’’, opina.
  O médico Jonas de Faria Castro Filho ajudou a fomentar a idéia e criar a Associação Médica de Londrina (AML): ‘‘Mas foi Newton Câmara um dos grandes incentivadores’’. Formado em 1940, no Rio de Janeiro, veio a convite do pai, o Dr. Jonas, da ‘‘Casa de Saúde Dr. Jonas’’, que ficava na Avenida Rio de Janeiro e foi fechada em 1944. ‘‘Papai fez um colega de turma escrever uma carta para me convencer a vir
para cá. Em 6 de março de 1941 desci do trem na estação’’, conta.
  Na época eram comuns os casos de tuberculose, lepra, tifo, difteria e raiva canina, os dois primeiros tratados com o isolamento do paciente. Mas, ele lembra de um caso ‘‘ainda do tempo do hospital do ‘papai’’ que o marcou muito: ‘‘era uma japonesinha com uma ‘canivetada’ no baço, que levou 17 horas para vir de próximo de Uraí a Londrina. Fiz a cirurgia, mas ela morreu porque estava praticamente sem sangue’’.
  Castro Filho calcula ‘‘umas 25 mil’’ cirurgias no currículo e teve o privilégio de envelhecer com seus pacientes. No fichário do cirurgião, que ainda exerce o ofício, ele exibe com orgulho cadastros de pacientes que atende desde a década de 50. ‘‘Tenho tanta ligação com Londrina que me considero parte daqui’’.

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