Se no fim da década de 70 e início da de 80 a ordem era consertar, hoje a tarefa não seria completa sem também uma boa reforma. Quem afirma é o mecânico de lambretas, Gilberto Machado, 56 anos, segundo o qual a exigência reflete a necessidade de uma clientela que tem mudado ao longo dos anos, mas jamais desaparecido.
''Naquela época, as motonetas eram usadas até por mulher, que acabava sendo meio discriminada por isso. Lambreta ou Vespa (as marcas mais tradicionais do veículo) era artigo de jovem 'garanhão' e que tinha dinheiro, além dos que as usavam mais para trabalhar'', recorda-se. E hoje? ''Londrina ainda tem muita gente que gosta das lambretinhas, principalmente profissionais liberais como médicos, engenheiros e empresários, todos de meia-idade. A maioria são pessoas que olham fotos passadas dos pais e querem reviver aquele período'', conta.
E dependendo de quão importante pode ser o revival, melhor para o mecânico. ''Já vendi uma motoneta de R$ 1 mil que só a reforma custou R$ 2 mil'', conta Machado. Questionado se ele próprio compraria um veículo desses hoje, titubeia: ''Elas dão mais problemas que as motos modernas, especialmente na suspensão. Antes eu ia com a minha até Bela Vista do Paraíso (40 km a norte de Londrina) e sofria que era um condenado, ainda mais se a roda resolvia enfrentar algum buraco do caminho'', ri.
Guardadas as devidas proporções, situação semelhante é vivida pelo seleiro Naur Inácio, 63 anos. Ele garante que é o mais antigo em atividade hoje em Londrina, nesse ramo, já que começou aos 8 anos de idade. ''Sou a terceira geração da minha família a mexer com isso. Aprendi com meu pai, que aprendeu com meu avô. E em uma prole de seis filhos, fui o único me interessar pelos arreios e selas'', comenta.
Naur observa que a atividade lhe garante uma velhice sossegada. ''Se parar de pegar encomendas agora, tenho trabalho para pelo menos três meses'', ilustra. Mesmo assim, já houve o auge para os seleiros em Londrina, na opinião dele que, na ocasião, chegou a cobrar em dólar. ''Foi de 1994 a 1999, pois o estilo country era a moda. Atendi muito jovem, fiz muito cinto, roupa e chapéu de couro; era uma febre'', diz. Hoje, passada a fase, os clientes não mudaram muito em relação aos de décadas passadas.
''A pecuária nunca vai deixar de existir, mesmo com tanto pecuarista que aderiu às lavouras de soja. Além do mais, os arreios e selas que faço aqui são confeccionados sob medida, personalizados, enquanto os prontos são padronizados'', frisa. Em média, de acordo com o seleiro, cada arreio custa cerca de R$ 200, enquanto a sela, mais sofisticada, vale no mínimo R$ 700. Daí a razão para ele produzir mais as do primeiro tipo.
''Nossa região é de trabalho, não de lazer. A sela é para o hotel-fazenda ou para o filho do fazendeiro; difícil alguém comprá-la para o peão'', comenta, destacando que a maioria dos clientes hoje não é de Londrina e sim de cidades vizinhas, como Ortigueira (113 km ao sul de Apucarana) e Sertanópolis (40 km ao norte de Londrina), ou até do Mato Grosso (MT).
Mesmo com trabalho para o mês inteiro, o seleiro acredita que, em Londrina, a queda do poder aquisitivo pode contribuir para que o produto seja menos valorizado que na região de Curitiba ou mesmo em Santa Catarina, locais de onde veio de uma temporada de três meses. ''Lá, sim, muita gente usa a lazer, e quase não 'chora' no preço''. É possível uma mudança de endereço, portanto? ''De jeito nenhum. Não troco o certo pelo duvidoso.'' (J.G.)

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