Ah, se os bichos falassem! Retiradas de seu habitat natural e colocadas nos zoológicos, as criaturas ditas selvagens teriam muito a contar sobre a vida do outro lado da cerca. O que diriam, por exemplo, sobre esta época de frio intenso, quando encaram o vento gelado de Curitiba?
  Ao contrário do que se pode pensar, animais originados em regiões quentes não necessariamente sofrem com este tipo de clima. Até porque muitos deles nasceram nos zôos locais ou estão por aqui há muito tempo. Com o perdão do trocadilho infame, o bicho pega mesmo para as espécies de pequeno porte, cujo metabolismo é mais alto. Neste período do ano, elas têm de comer e se exercitar em dobro para manter a temperatura do organismo. Mas, em alguns casos, esse esforço instintivo não é suficiente.
  Para proteger os animais, são usados ‘‘aparatos de controle do frio’’ , como explica o veterinário Manoel Javorouski, do Departamento de Zoológico, subordinado à Secretaria Municipal de Meio Ambiente. ‘‘São recursos não tão evidentes para o público, mas que mantêm os animais aquecidos’’, afirma.
  No Zôo de Curitiba, foram construídos sistemas indoor nos recintos das aves e primatas menores. Equipadas com ninhos, cochos de comida e telhas transparentes, as ‘‘suítes’’ servem de abrigo em momentos de frio extremo. ‘‘O animal tem a opção de ficar dentro ou fora do sistema’’, diz Javorouski, apontando o espaço do Mutum-da-Venezuela, teoricamente mais acostumado ao calor.
  Já o Passeio Público, cujos recintos são muito antigos, oferece outro tipo de proteção contra o frio: cortinas plásticas. A exceção fica por conta do serpentário, forrado com pedras artificais aquecidas e lâmpadas específicas.
  A alimentação dos bichos também muda no frio. Mais gordurosa, recebe um reforço de castanhas, cocos e pinhões. O chimpanzé, por sua vez, passa a comer cebolas, para evitar a gripe. E como a previsão é de que este inverno será rigoroso, alguns animais receberão doses profiláticas de vitamina C. Tudo para evitar as doenças respiratórios comuns neste período.
  Alheios às dificuldades dos pequenos, animais como o tigre, a girafa e o urso passam pelo inverno sem maiores problemas. Mesmo para o hipopótamo, chegado num laguinho, a rotina permanece a mesma. ‘‘A água serve como isolante térmico, e muitas vezes é melhor ficar mergu-lhado’’, garante Javorouski, ressaltando também o tamanho e a quantidade de gordura do bichão. Como se vê, a lei do mais forte impera até no Zôo.

Tratamento VIP
No setor reservado aos programas de reprodução em cativeiro, os papagaios Chauá recebem atenção especial. Acostumados com o calor do Espírito Santo, onde foram apreendidos pelo Ibama, as aves ameaçadas de extinção também têm a opção de se acomodar no sistema indoor. De acordo com o ornitólogo Pedro Scherer, que acompanha o processo, o namoro pode se arrastar por até 13 anos antes da chegada dos primeiros filhotes. Haja paciência.
  Outro hóspede VIP, este por sua fama instantânea, é o babuíno Kimba, que há pouco tempo virou notícia nacional após ser apreendido em um circo de Foz do Iguaçu. Alojado no setor extra, destinado aos animais excedentes ou ainda sem recinto adequado na exposição, o primata já se sente em casa. ‘‘Quando ele chegou, aceitava apenas uma fruta. Agora, come de tudo’’, conta Javorouski.
  O bicho parece inquieto, chacoalha-se para os lados sem parar. Segundo o veterinário, trata-se de um movimento típico dos animais circenses, sempre acorrentados e presos em jaulas mínusculas. A tendência é de que, aos poucos, ele retome a postura natural.
  Com idade estimada entre 10 e 15 anos, Kimba é um babuíno sagrado. E apesar de esta ser uma espécie originada no norte da África, não se tem idéia de onde ele nasceu. Aliás, é possível que o primata nem continue no Zoológico de Curitiba. ‘‘O circo entrou com um pedido para reavê-lo, então tudo depende do processo judicial’’, diz Javorouski.
  Pelo jeito, Kimba em breve terá bem mais do que seus já garantidos 15 minutos de fama. Morram de inveja, ex-Big Brothers! (O.G.)

Fugir para onde?
Humanizar os bichos é uma tendência natural desde que o homem passou a se preocupar com o direito dos animais. Não à toa, muitas vezes enxerga-se os zoológicos como meras vitrines de espécies, e sentimos pena das criaturas ‘‘encarceradas’’ ali.
  É verdade que o conceito dos zôos já foi esse: capturar para mostrar. E se o bicho morrer, coloca-se outro igual no lugar. Mas a situação mudou bastante a partir de meados do século passado.
  ‘‘Não se pega mais animal na natureza. Ele chega por fatores externos ou nasce em cativeiro’’, garante Javorouski. Por ‘‘fatores externos’’, entenda-se apreensões como a do babuíno Kimba e de bichos capturados pelo tráfico de animais (o terceiro maior comércio ilegal do mundo, perdendo apenas para o de armas e o de drogas).
  De acordo com o veterinário, os zoológicos modernos têm quatro funções básicas: lazer, educação ambiental, fonte de pesquisa e conservação das espécies. Sobre esta última, talvez a mais importante, ele cita o exemplo dos tigres. ‘‘Dos 40 mil existentes no mundo, apenas 5 mil ainda estão na natureza. Os outros 35 mil vivem em zôos. Isso é reflexo do crescimento da população humana, que cada vez ocupa mais espaço’’.
  Ou seja: sem os zoológicos, muitas espécies teriam desaparecido. E mesmo que pudessem, os bichos não teriam para onde fugir. (O.G.)

Estrutura do Zôo e Passeio Público
- Cento e quinze funcionários atuam no Departamento de Zoológico de Curitiba, que compreende o Zôo e o Passeio Público. No total, os dois parques contam com cerca de 2.500 animais, que consomem até 30 toneladas de comida por mês.
O setor de Comunicação da prefeitura não soube informar o orçamento do departamento.
- Inaugurado em 1982, o Zoológico ocupa uma área de 530 mil metros quadrados no interior do Parque do Iguaçu. Considerado um dos cinco mais importantes do País, é o único entre os grandes que oferece entrada gratuita. Por isso, contabiliza uma média de 50 mil visitas mensais.
- Criado em 1886, o Passeio Público é o parque mais antigo de Curitiba. Está instalado em uma área de quase 70 mil metros quadrados, que também serve de passagem para quem percorre o centro da cidade. Por não ter catracas nas entradas, não se sabe o número de visitações – mas é certo que milhares de pessoas passem por lá todos
os dias.

SERVIÇO
- Zoológico
Rua João Miqueletto,
s/n - Alto Boqueirão
Horário de funcionamento: Terça a domingo, das 8h30 às 17h.
Fone: 3378-2376.
- Passeio Público
Rua Presidente Faria, s/n - Centro
Horário de funcionamento: Terça a domingo, das 8h às 18h.
Fone: 3222-2742.
Fontes: Setor de Comunicação e site da Prefeitura de Curitiba.

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