Massayo embalou a menina Tomi
No começo não tinha dinheiro para passagem e a gente ficou. Depois, pensava e pensava, conversava e falava: vida no Japão é muito triste. O depoimento foi dado por Dona Massayo Ussui, em Bandeirantes (Norte Pioneiro do Paraná), a um dos inúmeros jornalistas que a procuraram para ouvir histórias dos primeiros imigrantes japoneses no Brasil.
Em junho de 1988, quando foram comemorados os 80 anos da chegada da primeira leva de nipônicos no navio Kasato Maru, Dona Massayo tinha 101 anos de idade. Ela pertencia ao grupo pioneiro e tinha 19 anos. Havia se casado recentemente com Kaito Ussui, homem que escolheu companheira, providenciou papéis e contraiu núpcias às pressas, para poder embarcar no Kasato. Era preciso ser casado para poder emigrar.
Nas recordações que relatava, quando conversava e falava, uma lembrança era nítida: Dona Massayo dizia que, no navio, pegou em seus braços por muitas vezes a menina Tomi Nakagawa, que tinha menos de 2 anos de idade.
Elas eram, até 1994, as duas paranaenses remanescentes daquela viagem do Kasato Maru, uma morando em Londrina e outra em Bandeirantes. Mas, naquela ano, no dia 27 de setembro, aos 104 anos, Dona Massayo se foi.
Dona Massayo Morreu deixando vivos apenas seis dos 14 filhos que criou, oito netos e 14 bisnetos. Tomi, a menina que ganhou o colo de Dona Massayo, é hoje o único símbolo com vida da imigração japonesa. Outros dois imigrantes pioneiros, que moravam no Estado de São Paulo, também faleceram depois das comemorações do Imin 80.
FugaO casal Massayo e Kaito desembarcou no Porto de Santos no dia 18 de junho de 1908 e foi encaminhado para a Fazenda Dumont, que pertencia à família do pai da aviação, Alberto Santos Dumont, na região de Ribeirão Preto. As condições de trabalho e o regime de quase escravidão assustaram os jovens recém-casados, que fugiram e foram para a capital paulista.
Dona Massayo e o marido Kaito foram contratados por Gabriel Ribeiro dos Santos, que no governo Arthur Bernardes foi ministro da Agricultura. Ele como copeiro e ela como faxineira. Por indicação do ex-ministro, Kaito foi trabalhar na Estrada de Ferro Sorocabana como guarda-freios, o responsável pela mudança no posicionamento dos trilhos durante as manobras dos trens.
Astuto e inteligente, pouco tempo depois ganhou uma vaga no escritório da Sorocabana. Também arranhava o inglês e teve facilidade para aprender o português. Chegou inclusive a trabalhar como interprete em três fazendas. Nesse período, o casal acumulou dinheiro para comprar o primeiro lote de terras.
Massayo e Kaito entraram no Paraná por Cambará. Como empregado da Colonizadora Bratac, a família foi para Assaí, na época chamada Três Barras. Mas o lote de terras, de 100 alqueires, foi comprado em Bandeirantes, que ainda era o distrito de Invernada.
Nas comemorações do Imin 60, Dona Massayo recebeu do governo japonês a comenda Kun lokuto zuihou sho (Ordem do Tesouro Sagrado Raios de Ouro e Prata). Ela também recebeu uma bênção do Papa João Paulo II, concedida pela religiosidade com que sempre pautou sua vida.
Ela sempre vendeu, para coloborar com a igreja, os terços da Terra Santa, diz a neta, conhecida em Bandeirantes como irmã Mária Célia, coordenadora de um projeto mantido pela Igreja Católica para crianças carentes do município.Arquivo FolhaDesde 1908Massayo, falecida em 1994, chegou recém-casada, com 19 anosWalter Ogama





