Marta e Maria, as siamesas londrinenses que surpreenderam o País
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de agosto de 2005
Alan Maschio<br> Reportagem Local 
À história da dona-de-casa Isabel Boccon não bastam os dramas vividos por uma família marcada por um dos casos mais raros já registrados pela medicina no mundo. Mãe das gêmeas siamesas mais famosas do Paraná e talvez do Brasil as irmãs Maria Madalena de Sá e Marta Regina de Sá Isabel conta hoje aos 65 anos de idade, o sofrimento e as angústias de uma mulher que viu, depois de 35 anos do nascimento das duas crianças, a separação das filhas, a segregação da própria família e a desconstrução de todos os sonhos que uma progenitora pode desejar aos rebentos.
Em 1970, Isabel morava em uma pequena chácara no Distrito da Warta (Zona Norte de Londrina), quando foi levada pelo marido, o agricultor Domiciano Rodrigues de Sá, para o Hospital Santa Casa de Londrina. Grávida de sete meses e meio, ela não imaginava que pudesse estar entrando em trabalho de parto. ''Já desconfiava que pudessem ser gêmeas, porque elas se mexiam muito'', conta, em frente da casa onde vive hoje, em Cambé (13 km a Oeste de Londrina).
Às 3 horas do dia 14 de junho veio a surpresa. O cirurgião responsável pelo parto, o médico João Fernando Góis, percebeu que, ao puxar um dos bebês pela abertura feita na barriga de Isabel, a outra criança vinha junto. Eram siamesas, ligadas uma à outra pela região pubiana. A notícia tomou conta da Santa Casa em segundos. As duas nasceram pesando 3,6 quilos, com estado razoável de saúde e apresentando plenas condições para a separação, já que, internamente, somente o intestino grosso as ligava.
As avaliações para definir como seria conduzida a cirurgia foram realizadas nos seis meses seguintes e a equipe médica da Santa Casa operou Marta e Maria em janeiro de 1971. Sucesso total, tendo em vista que uma característica tornava o caso das siamesas londrinenses quase único no mundo: somente um cordão umbilical as alimentava durante a gravidez. Em todos os registros médicos do planeta, só mais um caso semelhante foi apontado.
As meninas viveram os cinco anos seguintes na Santa Casa, para que pudessem ser avaliadas e sujeitas à fisioterapia para correções ortopédicas. ''Só tínhamos lembranças boas delas. Eram meninas alegres, muito brincalhonas'', conta o cirurgião geral José Maria Pereira Rezende, médico que chefiou o trabalho de separação das siamesas. Poucos meses depois do parto, a cidade estava mobilizada para ajudar a família de dona Isabel. Sem condições de custear o tratamento e morando longe do hospital, Isabel não precisou pagar um centavo pelo tratamento, e logo ganharia uma casa da Companhia de Habitação de Londrina (Cohab), no Jardim Leonor (Zona Oeste).
A família reuniu-se novamente por volta de 1975. Dona Isabel não se lembra, com certeza, de quando as meninas puderam voltar para casa, onde já estavam a filha mais velha, o caçula e o marido. A boa notícia, no entanto, não veio sozinha. ''Meu marido nos abandonou pouco tempo depois que elas saíram do hospital'', conta.
Felizmente, a alegria voltou à família Sá em pouco tempo. Isabel recorda-se com felicidade evidente de boa parte dos quase 30 anos que morou com os filhos no Jardim Leonor. ''Elas viviam fazendo arte, como toda criança. Brincavam muito, eram muito unidas. Brigavam sério também. Lembro-me que quando a Maria ficava irritada com a Marta a mais fraquinha ela pegava um pano de chão e tentava sufocar a irmã. Em segundos Marta começava a ter crises de bronquite.
''O impressionante era que elas brigavam muito feio, mas logo estavam abraçadas e brincando de novo'', lembra Isabel, repartindo as recordações com os vizinhos do bairro. ''Tínhamos um relacionamento muito bom. As meninas eram muito queridas'', diz a dona Francisca de Freitas. ''Isabel vem em casa até hoje, pois somos muito amigas'', destaca também uma dona-de-casa que se identificou apenas como Nilce.
A complexidade da operação que separou as meninas, destacada até hoje pelo médico José Maria Rezende, fez com que a equipe da Santa Casa apontasse Marta e Maria como estéreis. A notícia, segundo Isabel, foi motivo de muitas discussões entre a família. ''Avisava as minhas filhas para que elas tomassem cuidado, para que evitassem tentar ter filhos. A Marta era mais boazinha e me ouvia. Mas a Maria, muito brava, ficava revoltada. Chegou até a ter problemas com bebida por causa disso''.
Para o bem ou para o mal, Maria realmente não ouviu os conselhos da mãe. O resultado foi que em 1993 ela ganhou Carlos Henrique, o primeiro dos dois filhos que tem. A notícia foi publicada pela própria Folha, que acompanhou a vida das irmãs desde o nascimento. Na época, Maria chegou a dizer que tinha vergonha do filho, por não estar casada. A criança, que foi recebida como ''um presente antecipado'', pelo aniversário de 23 anos, foi deixada com dona Isabel, que cria Carlos Henrique até hoje. ''Vou bem na escola, e a matéria que mais gosto é de Educação Física. Não jogo bola muito bem, mas quero ser jogador, sim'', diz o garoto, abraçado à avó. ''Ele mal conhece o pai, que também o abandonou logo depois que ele nasceu. Fiquei sabendo que ele morreu de Aids'', especula dona Isabel.
Maria, sempre acompanhada por Marta, decidiu sair da casa da mãe assim que Carlos Henrique nasceu. Sempre que recebia visitas das filhas, Isabel tentava convencer as duas a voltar para casa, sem sucesso. ''Marta dizia que precisava ficar com a irmã'', afirma, respaldada por depoimentos de funcionários de um Hospital de Arapongas, onde Marta, certa vez, foi internada com problemas cardíacos. ''Eles diziam que Maria não queria sair de perto da irmã mesmo fora dos horários de visita''. A situação repetia-se, a exemplo do que foi presenciado pelos servidores da Santa Casa de Londrina, durante o período de internação de Maria, durante a gravidez.
Inevitavelmente, a separação aconteceu em 1997. Vítima de graves problemas respiratórios, Marta morreu no hospital, no primeiro momento da vida em que esteve internada sem a companhia da irmã. ''Não sabíamos onde Maria estava. Nesta época, ela provavelmente morava em Castro (41 km ao Norte de Ponta Grossa)'', conta Isabel. Indiretamente, a morte da filha obrigou Isabel a mudar de endereço. ''Minha casa foi invadida por ladrões quando eu estava no hospital com a Marta. Depois disso passei três anos sendo assaltada com frequência e tendo meu quintal invadido até por gente que queria fazer necessidades. Não aguentei e me mudei para Cambé'', explica.
Além da dor da perda de uma filha, a morte de Marta trouxe para Isabel o afastamento de Maria. Segundo a dona-de-casa, Maria, que hoje tem um vigia noturno como companheiro, não dá notícias sobre onde mora ou como vive. Carlos Henrique vê a mãe esporadicamente, durante visitas rápidas e cheias de agressividade. ''A última vez que ela veio foi em janeiro. Não sei se ela mora em Castro, em São Paulo ou mesmo em Londrina. Para cá, ela disse que não volta. Às vezes, ela até me culpa pelo problema que ela tem nas pernas. Ela não fez tratamento direito e por isso ela manca até hoje. Me diz, de vez em quando, que eu só a coloquei no mundo para fazê-la sofrer'', lamenta a mãe.
Isabel não trabalha e diz não receber aposentadoria. Segundo ela, a necessidade toma conta da casa cedida por parentes com grande frequência. A esperança da dona-de-casa é conseguir vender a antiga residência, que foi transformada em mocó por traficantes. ''Ela está no nome do meu ex-marido e não consigo vender'', diz. Alheia ao sofrimento que a vida lhe impôs, Isabel credita à Deus tudo o que aconteceu. ''Às vezes eu me pergunto porque tudo isso aconteceu comigo... Mas aí vou à Igreja e entendo que Deus quis minha vida assim''.


